Para quem acredita em tudo o que diz a imprensa


Agradeço Antônio Carlos Santini pela colaboração.
Pelo pe. Raymond J. de Souza (http://corner.nationalreview.com)
Tradução: Emerson de Oliveira
O jornal New York Times, em 25 de março, acusou o cardeal Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, de intervir para impedir que um padre, Lawrence Murphy, enfrentasse sanções para os casos de abuso sexual de menores.
A história é falsa. É suportado por sua própria documentação. Na verdade, ela dá todos os indícios de fazer parte de uma campanha coordenada contra o Papa Bento XVI, ao invés de jornalismo responsável.
Antes de abordar o fundo falso da história, as seguintes circunstâncias são dignas de nota:
• A história do New York Times teve duas fontes. Primeira, advogados que atualmente têm ação civil pendente contra a Arquidiocese de Milwaukee. Um dos advogados, Jeffrey Anderson, também tem casos pendentes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos contra a Santa Sé. Ele tem um direto interesse financeiro na matéria que está sendo relatada.
• A segunda fonte foi o arcebispo Rembert Weakland, arcebispo emérito de Milwaukee. Ele é o bispo mais desacreditado e desonrado nos Estados Unidos, conhecido por descuidar de casos de abuso sexual durante sua posse, e culpado de usar $ 450.000 de fundos arquidiocesanos para pagar suborno a um ex-amante homossexual que lhe estava chantageando. O arcebispo Weakland tinha a responsabilidade pelo caso de padre Murphy entre 1977 e 1998, quando o padre Murphy morreu. Ele estava amargurado que a sua má administração da Arquidiocese de Milwaukee lhe valeu o desagrado do Papa João Paulo II e Joseph Ratzinger, muito antes de ter sido revelado que ele tinha usado o dinheiro dos paroquianos para pagar seu amante clandestino. Ele é prima facie, não uma fonte confiável.
• Laurie Goodstein, a autora da história do New York Times, teve uma história recente com o arcebispo Weakland. No ano passado, após o lançamento da autobiografia do infeliz arcebispo, ela escreveu uma história invulgarmente simpática que enterrou todas as acusações mais graves contra ele (New York Times – 14 de maior de 2009).
• Uma demonstração ocorreu em Roma na sexta-feira, coincidindo com a publicação da história do New York Times. Alguém poderia perguntar se seria coincidência que ativistas americanos em Roma estivessem distribuindo os mesmos documentos referidos naquele dia no New York Times. A aparência aqui é de uma campanha coordenada, ao invés de relatórios desinteressados.
É possível que más fontes possam providenciar a verdade. Mas fontes comprometidas pedem por um maior controle. Em vez de um maior controle da história original, no entanto, os editores de notícias de todo o mundo simplesmente repetiram o New York Times. O que nos leva ao problema mais fundamental: a história não é verdadeira, segundo a sua própria documentação.
O New York Times disponibiliza em seu próprio site a documentação de apoio para a história. Nesses documentos, o próprio cardeal Ratzinger não toma qualquer decisão que, alegadamente, frustra o julgamento. As cartas são dirigidas a ele; as respostas vêm de seu vice. Mesmo deixando isso de lado, porém, a acusação aqui – de que o escritório do cardeal Ratzinger impediu alguma investigação – está provada ser totalmente falsa.
Os documentos mostram que o processo penal ou processo canônico contra o padre Murphy nunca foi interrompido por ninguém. Na verdade, ele só foi abandonado dias antes do padre Murphy morrer. O cardeal Ratzinger nunca tomou uma decisão sobre o caso, de acordo com os documentos. Seu vice, o arcebispo Tarcisio Bertone, sugeriu que, já que o padre Murphy estava com a saúde debilitada e um julgamento canônico seria um assunto complicado, o mais correto seria removê-lo de todo o ministério.
Repetindo: a acusação de que o cardeal Ratzinger alguma coisa errada não é suportada pela documentação em que a história foi baseada. Ele não aparece no registro como tomando qualquer decisão. Seu escritório, na pessoa do seu vice, Dom Bertone, concordou que deve haver um completo julgamento canônico. Quando se tornou evidente que o padre Murphy estava com a saúde debilitada, Dom Bertone sugeriu que o mais correto seria removê-lo de todo o ministério.
Além disso, segundo o direito canônico na época, a principal responsabilidade de casos de abuso sexual ficava com o bispo local. O arcebispo Weakland tinha, a partir de 1977, a responsabilidade de administrar as sanções ao padre Murphy. Ele não fez nada até 1996. Foi nesse momento que o gabinete do Cardeal Ratzinger se envolveu, e, posteriormente, não fez nada para impedir o processo local.
O New York Times conta a história errada, segundo a sua própria evidência. Os leitores podem querer especular sobre o motivo.
Aqui está o cronograma dos fatos mais relevantes, extraídos dos documentos do New York Times postados em seu próprio site.
15 de maio de 1974
É alegado um abuso pelo padre Lawrence Murphy por um ex-aluno da Escola para Surdos de S. João em Milwaukee. Na verdade, as acusações contra o Padre Murphy remontam há mais de uma década.
12 de setembro de 1974
É concedido ao padre Murphy uma “licença para tratamento de saúde” oficial da Escola para Surdos de S. João. Ele deixa Milwaukee, Wisconsin e muda-se para o norte, na Diocese do Superior, onde ele mora numa casa de família com sua mãe. Ele não tem atribuição oficial a partir deste ponto até a sua morte em 1998. Ele não volta a viver em Milwaukee. Nenhuma sanção canônica é exercida contra ele.
9 de julho de 1980
Funcionários da Diocese do Superior escrevem aos funcionários da Arquidiocese de Milwaukee sobre que ministério o padre Murphy poderia fazer no Superior. O arcebispo Rembert Weakland, arcebispo de Milwaukee desde 1977, foi consultado e disse que seria prudente ter o padre Murphy de volta para o ministério com a comunidade surda. Não há indicação de que o arcebispo Weakland prevê outras medidas a serem tomadas no caso.
17 de julho de 1996
Mais de 20 anos após as alegações de abusos originais, o arcebispo Weakland escreve ao cardeal Ratzinger, afirmando que só agora ele descobriu que o abuso sexual do padre Murphy envolvia o sacramento da confissão – um crime canônico ainda mais graves. As acusações sobre o abuso do sacramento da confissão estavam nas alegações de 1974. A esta altura, Weakland já havia sido arcebispo de Milwaukee por 19 anos.
Deve-se notar que, com relação a acusações de abusos sexuais, o arcebispo Weakland poderia ter procedido contra o padre Murphy a qualquer momento. A questão da solicitação no sacramento da confissão requereu notificar Roma, mas que também poderia ter sido feito nos anos 1970.
10 de setembro de 1996
O padre Murphy é notificado de que um processo canônico irá proceder contra ele. Até 2001, o bispo local tinha autoridade para agir em tais assuntos. A Arquidiocese de Milwaukee vai agora começar o julgamento. É de salientar que, neste momento, nenhuma resposta foi recebida em Roma, indicando que o arcebispo Weakland sabia que ele tinha autoridade para prosseguir.
24 de março de 1997
O Arcebispo Tarcisio Bertone, secretário adjunto do cardeal Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, aconselha um processo canônico contra o padre Murphy.
14 de maio de 1997
O arcebispo Weakland escreve ao arcebispo Bertone para dizer que o processo penal contra o padre Murphy foi lançado, e observa que a Congregação para a Doutrina da Fé aconselhou-o a prosseguir, mesmo que o estatuto de limitações expire. Na verdade, não existe estatuto de limitações para a solicitação no sacramento da confissão.
Durante todo o resto de 1997, a fase preparatória do processo penal ou processo canônico está em andamento. Em 5 de Janeiro de 1998, o Tribunal da Arquidiocese de Milwaukee diz que um processo acelerado deve ser concluído dentro de poucos meses.
12 de janeiro de 1998
O padre Murphy, agora menos de oito meses de sua morte, apela para o cardeal Ratzinger que, dada a sua saúde frágil, ele deve ser autorizado a viver os seus dias em paz.
6 de abril de 1998
O arcebispo Bertone, observando a saúde frágil do padre Murphy e que não houve novas acusações em quase 25 anos, recomenda a utilização de medidas pastorais para garantir  que o padre Murphy não exerça ministério, mas sem a acusação completa de um processo penal. É apenas uma sugestão, como o bispo local mantém o controle.
13 de maio de 1998
O Bispo do Superior, onde o processo foi transferido para e onde o padre Murphy tem vivido desde 1974, rejeita a sugestão de medidas pastorais. Inicia-se um julgamento pré-formal  em 15 de maio de 1998, continuando o processo já iniciado com a notificação de que tinha sido emitida em setembro de 1996.
30 de maio de 1998
O arcebispo Weakland, que está em Roma, reúne-se com os membros na Congregação da Doutrina da Fé, incluindo o arcebispo Bertone, mas não incluindo o cardeal Ratzinger, para discutir o caso. O processo penal está em curso. Nenhuma decisão é tomada para pará-lo, mas dadas as dificuldades de um julgamento depois de 25 anos, outras opções são exploradas que iriam remover mais rapidamente o padre Murphy do ministério.
19 de agosto de 1998
O arcebispo Weakland escreve que ele parou o processo canônico e o processo penal contra o padre Murphy e foi imediatamente iniciado o processo para tirá-lo do ministério – uma opção mais rápida.
21 de agosto de 1998
Morre o padre Murphy. Sua família desafia as ordens do arcebispo Weakland para um funeral discreto.

– O padre Raymond J. de Souza é um capelão na Queen’s University, em Ontário.
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