Que me compreendeu, sem nenhum explicação


À direita de Dom Aloisio, junto com Pe Piero. Foto Fany Moreira

Como disse em meu último post, Pe Domingos Burzio celebra agora a Eucaristia na Liturgia Celestial.

Quem foi Pe Domingos, para mim e para a RCC?

Iamos pelo ano de 1997. Estávamos a organizar o primeiro retiro de carnaval da RCC diocesana, agora na Pampulhinha. Faltavam padres para atender confissão.

Fui numa reunião do clero pedir (suplicar seria mais correto) o apoio dos padres. Apenas os italianos aceitaram o pedido ( ou responderam à súplica ). Mas o diálogo com Pe Domingos foi inesquecível.

Ao dizer para que era ( encontro de carnaval da RCC), ele virou o rosto, com sua expressiva linguagem facial, em tom de reprovação. Respondi-lhe, na ‘bucha’, que eu estava organizando tudo, pregações, missas, etc, mas nãopodia atender confissões. Se pudesse, faria, porque o povo precisava.

Apesar desta resposta malcriada minha, ele foi. Segunda feira, 17h, chegou lá. Foi o último a sair do Parque de Exposições, meia noite e meia. Atendendo confissões.

Terça feira, a mesma coisa. Os mesmos horários. Seguido, atendendo confissão.

Uma semana depois, ele me liga, pedindo que eu fosse dar uma palestra e dirigir um louvor em sua paróquia, Novo Oriente de Minas. Deixando a surpresa e o espanto de lado, aceitei o convite.

Após a noite de louvor, perguntei-o no jantar, na casa das irmãs de Nossa Senhora das Neves. Ele que fora tão resistente, e era para com a RCC, porque mudara de idéia?

Sua explicação foi simples. Após aquelas confissões, ele descobrira que a RCC colocava as pessoas ‘em crise’, isto é, elas assumiam seus porblemas, ao contrário de outras experiências católicas que ele conhecia, em que as pessoas tinham problemas, mas não assumias,

Não perdi tempo. Chamei-o para atender confissões na Associação Luz dos Povos, e a partir daí, ele passou por um bom tempo a nos orientar. Nos ensinando, especialmente, algo preciossíssimo: um bom conselheiro não dá conselhos, mas faz perguntas para que as pessoas descubram a verdade.

Pessoalmente, ele passou a me acompanhar em minhas muitas crises.

Quis a Divina Providência que meu último encontro com ele se desse no fim de semana da Páscoa. Participamos juntos da Vigília Pascal na Catedral, junto a Dom Aloísio. E no Domingo de Manhã, pela última vez, ele me atendeu em confissão.

Lá, depois de expor a ele a minha mais recente crise, e de como precisara inclusive de atendimento profissional terapêutico, ele me disse uma frase que continua ecoando dentro de mim: “O que importa é o processo (de conversão””).

Ele era meio descrente em alterações radicais de interioridades (“cura interior”), mas um profundo fiel do amor misericordioso de Deus. Assim, ele consolidou em mim a certeza de que Deus “me compreendeu sem nenhuma explicação”.

Isso é muito pouco de Pe Domingos. Líder formador de lideranças, especialmente na zona rural, incentivador da luta popular, homem que injustiçado pela Diocese a quem tanto se dedicara, nunca me disse uma palavra de amargura, reclamação, ou mesmo tristeza. Apenas esperança.

Hoje celebra a Eucaristia Celestial, não mais na sombra que celebramos aqui. E me deixa com essa frase entalada na garganta: “Pe Domingos não poderia ter morrido. ”

Mas Deus sorri. Entende meu sentimento de orfandade. E Ele que me deu este presente, continuará me presenteando. Porque Ele é Pai.

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3 respostas para Que me compreendeu, sem nenhum explicação

  1. maria helena otoni guedes disse:

    Luiz, acabo de chegar em casa, chegando da celebração das exéquias do Pe. Domingos e encontro seu precioso, delicado e profundo depoimento sobre ele. Realmente só quem conviveu e convive com a realidade dos nossos amigos padres italianos para conhecer um pouco do que eles carregam na alma, no espírito. A casa da minha mãe era a casa deles, de todos, e eu aprendi a entendê-los e amá-los, respeitando suas idéias e muitas vezes discordando e discutindo, mas sem nunca deixar de respeitá-los. Agora ele está nos braços do Pai e nós mais pobres de gente que é gente. Maria Helena

  2. carlos frederico g. pereira disse:

    Prezado Luís, foi com muita emoção que li sua mensagem.Conheci o Pe. Domingos no início da década de 80, quando ainda era estudante de direito, e ele já se preocupava em envolver universitários com trabalhos populares. Em várias ocasiões fomos a Teófilo Otoni, e sempre ali estava o Pe. Domingos, cheio de esperança e planos, sem nunca mostrar desânimo. Batizou o nosso filho mais velho, em 89, e depois sempre mantivemos contato, sendo que nos últimos tempos eram telefônicos. Dava para perceber a preocupação dele com os rumos da Igreja local, mas como você falou, sem demonstrar nenhuma mágoa. Imagino quantas angústias ele deve ter sofrido, principalmente no pós D.Quirino, com o verdadeiro exílio interno imposto a ele.
    Espero que o que ele ainda vinha tentando, ou seja, formar pessoas oriundas das classes populares ´para que pudessem colocar o saber adquirido em favor de um compromisso social com os pobres, possa continuar. Acho que é uma missão que ele deixa para nós, amigos e admiradores. Agora na plenitude da vida, certamente continuará a nos questionar, com aquele sorriso meio alegre, meio triste, meio irônico. A Deus, Pe. Domingos.

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