Leituras de 04/10/10


Esta mensagem contém duas meditações: a primeira delas a respeito do Evangelho do dia e, a segunda, acerca de São Francisco de Assis, cuja memória é celebrada hoje pela Igreja.

ANO LITÚRGICO “C” – XXVII SEMANA DO TEMPO COMUM

Segunda-feira, 4 de outubro de 2010

SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Branco – Prefácio Comum ou dos Santos – Ofício da Memória

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Antífona: Francisco de Assis, homem de Deus, deixou sua casa e sua herança e se fez pobre e desvalido. O Senhor, porém, o acolheu com amor.

Oração do Dia: Ó Deus, que fizestes são Francisco de Assis assemelhar-se ao Cristo por uma vida de humildade e pobreza, concedei que, trilhando o mesmo caminho, sigamos fielmente o vosso filho, unindo-nos convosco na perfeita alegria. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Primeira Leitura: Gálatas 1, 6-12

Leitura da carta de são Paulo aos Gálatas:

6 Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente.

7 De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo.

8 Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema.

9 Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!

10 É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo.

11 Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano.

12 Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 111/110

O Senhor se lembra sempre da aliança.

Eu agradeço a Deus, de todo o coração,
junto com todos os seus justos reunidos!
Que grandiosa são as obras do Senhor,
elas merecem todo o amor e admiração!

Suas obras são verdade e são justiça,
seus preceitos, todos eles, são estáveis,
confirmados para sempre e pelos séculos,
realizados na verdade e retidão.

Enviou libertação para o seu povo,
confirmou sua aliança para sempre.
Seu nome é santo e é digno de respeito.
Permaneça eternamente o seu louvor.

Evangelho: Lucas 10, 25-37

Aleluia, aleluia, aleluia.

Eu vos dou novo preceito: que uns aos outros vos ameis, como eu vos tenho amado (Jo 13,34)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas:

25 Levantou-se um doutor da lei e, para pôr Jesus à prova, perguntou: Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?

26 Disse-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como é que lês?

27 Respondeu ele: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento (Dt 6,5); e a teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).

28 Falou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isto e viverás.

29 Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo?

30 Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto.
31 Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante.

32 Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante.

33 Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão.

34 Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele.

35 No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei.
36 Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?

37 Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: Vai, e faze tu o mesmo.

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Amarás! (Lc 10, 25-37)

No dia em que a Liturgia celebra a memória de São Francisco de Assis, o Evangelho nos traz um imperativo: “Amarás!”

Chegaríamos a estranhar o fato de que Jesus nos apresente o amor como um imperativo? Algo que não podemos recusar como detalhe opcional, mas constitui elemento essencial à mensagem cristã?

O poeta Francisco de Assis escreveu um belo hino de louvor, conhecido como “Cântico das Criaturas”. O texto contém um louvor cósmico que culmina com o louvor dos humanos. Mas existe uma segunda versão do mesmo cântico, à qual Francisco acrescentou nova estrofe, dedicada ao louvor do homem pacífico e misericordioso.

O acréscimo do poeta tinha um objetivo claro. Na época, o bispo de Assis e o “podestà” da cidade estavam em guerra declarada. Cioso da paz, Francisco enviou seus irmãos à presença de ambos com a missão de recitar o “Cântico das Criaturas”, devidamente acrescido com estas novas palavras:

“Louvado sejas tu, meu Senhor,

por aqueles que perdoam por amor a Ti;

os que suportam provações e enfermidades;

bem-aventurados se eles conservam a paz:

Por Ti, Altíssimo, eles serão coroados.”

A imagem de um cristão guerreiro, cristão de capa e espada, à procura de adversários para o combate, é claramente incompatível com o Evangelho pregado por Jesus Cristo. Alguns movimentos no interior da Igreja têm insistido na imagem do “soldado de Cristo”, do “guerreiro da fé”, animado para o confronto. É óbvio que não estão levando em conta o imperativo de amar…

Ora, o Evangelho não se impõe. Antes, ele é proposta humilde submetida à liberdade do homem. E Deus é o primeiro a respeitar a liberdade que Ele mesmo concedeu às criaturas como dom de amor.

E que fazer com nossos “inimigos”? O próprio Jesus nos deu a receita: “Amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem”. (Mt 5, 44)

Orai sem cessar: “Reine a paz em teus muros!” (Sl 122 [121], 7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo

Comentário sobre o Cântico dos cânticos, prólogo 2, 26-31 (a partir da trad. cf SC 375, pp. 111ss.)

«Vai e faz tu também o mesmo.»

Está escrito : «Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus» (1Jo 4, 7); e mais adiante: «Deus é amor» (8). Deste modo se diz, por um lado, que o próprio Deus é amor, e por outro, que aquele que é de Deus é amor. Ora, quem é de Deus senão aquele que diz: «Saí de Deus e vim a este mundo»? (Jo 16, 28). Se Deus Pai é amor, também o Filho é amor […] ; o Pai e o Filho são um só e em nada diferem. Eis a razão por que Cristo é chamado, para além de Sabedoria, Poder, Justiça, Verbo e Verdade, também Amor. […]

E, porque Deus é amor e o Filho que é de Deus é amor, exige em nós algo semelhante a Ele, de tal maneira que, por este amor, por esta caridade que está em Cristo Jesus […], sejamos unidos a Ele por uma espécie de parentesco, graças a este nome. Como dizia São Paulo, que estava unido a Ele: «Quem nos separará do amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor?» (Rom 8, 39).

Ora, este amor de caridade considera que todo o homem é o nosso próximo. Foi por essa razão que o Salvador repreendeu um homem que estava convencido de que a alma justa não estava obrigada a observar para com todos as leis do tratamento ao próximo. […] E compôs a parábola segundo a qual «certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores». Depois censura o sacerdote e o levita que, vendo-o meio morto, passaram adiante, mas presta homenagem ao Samaritano, que teve misericórdia para com ele. E confirma que este último foi o próximo do homem ferido com a resposta daquele mesmo que tinha feito a pergunta, a quem diz: «Vai e faz tu também o mesmo». Com efeito, por natureza, nós somos todos o próximo uns dos outros, mas pelas obras de caridade, aquele que pode fazer bem torna-se próximo daquele que não pode. Foi por isso que o nosso Salvador Se fez nosso próximo, e não passou adiante quando estávamos «meio mortos» em consequência dos ferimentos infligidos pelos «salteadores».

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TEMPO COMUM. VIGÉSIMA SÉTIMA SEMANA. SEGUNDA-FEIRA

31. E CUIDOU DELE

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Cristo é o Bom Samaritano que desce dos céus para curar-nos.

– Compaixão efetiva e prática por quem necessita de nós.

– Caridade com os mais próximos.

I. A PARÁBOLA do bom samaritano que lemos na Missa1, e que somente São Lucas registra, é um dos relatos mais belos e comoventes do Evangelho. Nela, o Senhor dá-nos a conhecer quem é o nosso próximo e como se deve viver a caridade com todos. Um homem descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos de uns ladrões que, depois de o terem despojado, o cobriram de feridas e foram-se embora, deixando-o meio morto.

Muitos Padres da Igreja e escritores cristãos antigos identificam Cristo com o Bom Samaritano2, assim como vêem no homem que caiu nas mãos dos ladrões uma figura da humanidade ferida e despojada dos seus bens pelo pecado original e pelos pecados pessoais. “Despojaram o homem da sua imortalidade e cobriram-no de chagas, inclinando-o ao pecado”3, afirma Santo Agostinho. E São Beda comenta que os pecados se chamam feridas porque com eles se destrói a integridade da natureza humana4. Os salteadores do caminho são o demônio, as paixões que incitam ao mal, os escândalos… O levita e o sacerdote que passaram ao largo simbolizam a Antiga Aliança, incapaz de curar. A pousada é o lugar onde todos podem refugiar-se e representa a Igreja…

“Que teria acontecido ao pobre judeu se o samaritano tivesse ficado em casa? Que teria acontecido às nossas almas se o Filho de Deus não tivesse empreendido a sua viagem?”5 Mas Jesus, movido de compaixão e misericórdia, aproximou-se do homem, de cada homem, para curar-lhe as chagas, fazendo-as suas6. Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por Ele tenhamos a vida…7

“A parábola do Bom Samaritano está em profunda harmonia com o comportamento do próprio Cristo”8, pois toda a sua vida na terra foi um contínuo aproximar-se do homem para remediar os seus males materiais ou espirituais. O Senhor nunca passa ao largo das nossas misérias e fraquezas quando nos vê contritos e humilhados9. A oração silenciosa da nossa humildade, que se vê despojada da sua auto-suficiência e da confiança nos recursos humanos, é a condição para que Cristo se detenha, nos recomponha dos nossos baques e cuide de nós ao longo dessa convalescença sem fim que é a nossa vida. Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim10.

II. A PARÁBOLA teve a sua origem na pergunta de um doutor da lei que indagou: E quem é o meu próximo? Para que todos ficassem esclarecidos, o Senhor fez desfilar diante do ferido diversos personagens: Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote, o qual, vendo-o, passou ao largo. Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar, viu-o e continuou adiante. Mas um samaritano, que ia de passagem, chegou perto dele e, ao vê-lo, moveu-se de compaixão. E, aproximando-se, pensou-lhe as feridas, lançando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem e cuidou dele pessoalmente.

Jesus quer ensinar-nos que o nosso próximo é todo aquele que está perto de nós – sem distinção de raça, de afinidades políticas, de idade… – e necessita de socorro. O Mestre deu-nos exemplo do que devemos fazer. “Este Samaritano (Cristo) lavou os nossos pecados, sofreu por nós, carregou o homem que estava meio morto, levando-o à estalagem, isto é, à Igreja, que recebe a todos e que não nega o seu auxílio a ninguém, e à qual Jesus nos convoca dizendo: Vinde a Mim… (Mt 11, 28). Depois de tê-lo levado à estalagem, não partiu imediatamente, mas ficou com ele um dia inteiro, cuidando dele dia e noite… Quando na manhã seguinte resolveu partir, deu dois denários do seu bom dinheiro ao dono da pousada e encarregou-o – isto é, encarregou os anjos da Igreja – de cuidar e levar para o Céu aquele de quem Ele cuidara nas angústias deste tempo”11.

O Senhor anima-nos a uma compaixão efetiva e prática por qualquer pessoa que encontremos ferida nos caminhos da vida. Estas feridas podem ser muito diversas: lesões produzidas pela solidão, pela falta de carinho, pelo abandono; necessidades do corpo: fome, a falta de roupa, de casa, de trabalho…; a ferida profunda da ignorância…; chagas na alma produzidas pelo pecado, que a Igreja cura no sacramento da Penitência, pois Ela “é a estalagem, colocada no caminho da vida, que recebe todos os que chegam, cansados da viagem ou vergados sob o peso de suas culpas, a pousada em que, deixando o fardo dos pecados, o viajante fatigado descansa e, depois de ter descansado, se repõe com salutar alimento”12.

Devemos empregar todos os meios ao nosso alcance para remediar essas situações de indigência, como o próprio Cristo o faria nessas circunstâncias. Que meios mais excelentes do que a caridade e a compaixão para nos identificarmos com o Mestre? “Sob as suas múltiplas formas – indigência material, opressão injusta, doenças físicas e psíquicas e, por fim, a morte –, a miséria humana é o sinal manifesto da fraqueza congênita em que o homem se encontra após o primeiro pecado e da necessidade de salvação. É por isso que ela atrai a compaixão de Cristo Salvador, que quis assumi-la identificando-se com os mais pequeninos entre os seus irmãos (Mt 25, 40.45). É também por isso que os oprimidos pela miséria são objeto de um amor preferencial por parte da Igreja que, desde as suas origens, apesar das falhas de muitos dos seus membros, não deixou nunca de esforçar-se por aliviá-los, defendê-los e libertá-los”13.

Sempre que nos aproximemos de quem padece necessidade, devemos fazê-lo com uma caridade eficaz e de todo o coração, tornando nossa essa miséria que procuramos remediar. Diz um autor clássico castelhano que “aquele que deveras deseja contentar a Deus, entenda que uma das principais coisas que para isso servem é o cumprimento deste mandamento de amor, desde que esse amor não seja nu e seco, mas esteja acompanhado de todos os afetos e obras que costumam seguir o verdadeiro amor, porque de outra maneira não mereceria esse nome…”14 E acrescenta a seguir: “Debaixo do nome de amor, entre outras muitas coisas, encerram-se sobretudo estas seis, a saber: amar, aconselhar, socorrer, sofrer, perdoar e edificar”15.

III. A PARÁBOLA do bom samaritano indica-nos “qual deve ser a relação de cada um de nós com o próximo que sofre. Não nos está permitido passar por ele, com indiferença, antes devemos parar para ajudá-lo. Bom samaritano é todo o homem que pára junto do sofrimento de outro homem, seja de que gênero for”16.

Deus põe-nos o próximo com as suas necessidades e carências no caminho da nossa vida, e o amor realiza o que a hora e o momento exigem. Nem sempre são atos heróicos e difíceis; pelo contrário, muitas vezes o Senhor pede-nos simplesmente um sorriso, uma palavra de alento, um bom conselho, que saibamos calar-nos diante de uma palavra aborrecida ou impertinente, visitar um amigo que se encontra acamado. Há profissões – diz o Papa João Paulo II – que são uma contínua obra de misericórdia, como é o caso do médico ou da enfermeira17… Mas qualquer ofício requer um trato atento, compassivo e respeitoso para com as pessoas que nos procuram no trabalho. Temos de ganhar o hábito de ver Cristo nas pessoas que se relacionam conosco.

Mas, como a caridade deve ser ordenada, é necessário que nos esmeremos de modo muito especial no trato com os que nos são mais chegados por Deus os ter posto ao nosso lado de modo permanente: irmãos na fé, família, amigos, colegas de trabalho… “Pois se tão misericordioso e humano foi um samaritano com um desconhecido, quem nos perdoará se descuidarmos os nossos irmãos em males maiores?, pergunta-se São João Crisóstomo. E depois de aconselhar que não indaguemos por que outros se omitiram – especialmente se se trata de feridas da alma –, diz: “Cura-o tu e não peças contas a ninguém da sua negligência. Se encontrasses uma moeda de ouro, com certeza não pensarias: por que não a encontrou outro? Pelo contrário, correrias para apanhá-la quanto antes. Pois deves saber que, quando encontras o teu irmão ferido, encontraste algo que vale mais do que um tesouro: a possibilidade de cuidar dele”18. Não deixemos de fazê-lo.

Peçamos à Virgem, nossa Mãe, que nos ensine a estar atentos às necessidades alheias, como Ela o fez nas bodas de Caná. Maria não se importou de pedir ao seu Filho um milagre, simplesmente para não deixar os noivos numa situação embaraçosa por falta de vinho a meio da festa. Não nos ensinará a nossa Mãe a chegar ao fim do dia com as mãos cheias de contínuos atos de caridade, em casa, no trabalho, com qualquer pessoa que nos procure?

(1) Lc 10, 25-37; (2) cfr. Santo Agostinho, Sermão sobre as palavras do Senhor, 37; (3) Santo Agostinho, em Catena Aurea, vol. V, pág. 513; (4) cfr. São Beda, Comentário ao Evangelho de São Lucas; (5) Ronald A. Knox, Sermões pastorais, Rialp, Madrid, 1963, pág. 140; (6) Is 53, 4; Mt 8, 17; 1 Pe 2, 24; 1 Jo 3, 5; (7) 1 Jo 4, 9-11; (8) João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, 11.02.84, 28; (9) Sl 50, 19; (10) Mc 10, 47; (11) Orígenes, Homilia 34 sobre São Lucas; (12) São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. VI, pág. 519; (13) Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Libertatis conscientia, 22.03.86, 68; (14) Frei Luis de Granada, Guia de pecadores, I, 2, 16; (15) ibid.; (16) João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, 28; (17) ibid., 29; (18) São João Crisóstomo, Contra iudeos, 8.

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4 DE OUTUBRO

32. SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Memória

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– A pobreza de São Francisco. A pobreza no cristão corrente.

– A necessidade desta virtude nos nossos dias. Manifestações e modos de vivê-la.

– Frutos desta virtude.

São Francisco nasceu em 1182 na cidade de Assis (Itália), no seio de uma família abastada. Viveu e pregou infatigavelmente a pobreza e o amor de Deus a todos os homens. Fundou a Ordem dos Franciscanos; com Santa Clara, as Damas Pobres (Clarissas); e a Ordem Terceira, para os leigos. Morreu em 1226.

I. NUMA ÉPOCA em que eram grandes o brilho externo e o poder político e social de muitos eclesiásticos, o Senhor chamou São Francisco para que a sua vida pobre fosse um fermento novo naquela sociedade que, pelo seu apego aos bens materiais, se afastava cada vez mais de Deus. Com ele – afirma Dante – “nasce um sol para o mundo”1, um instrumento de Deus para ensinar a todos que a esperança deve estar posta apenas no Senhor.

Certo dia, rezando na igreja de São Damião, ouviu estas palavras: Vai e reconstrói a minha casa em ruínas. Tomando essa locução divina ao pé da letra, empregou todas as suas forças em recuperar aquela capela derruída e depois dedicou-se a reparar outros templos. Mas em breve compreendeu que a pobreza como expressão de toda a sua vida haveria de ser um grande bem para a Igreja. Chamava-a Senhora2, tal como os cavaleiros medievais chamavam as suas damas e como os cristãos se dirigem à Mãe de Deus.

A restauração da cristandade deveria vir pelo desprendimento dos bens materiais, pois a pobreza bem vivida permite colocar a esperança em Deus e apenas nEle. Num dia de fevereiro de 1209, em que ouviu as palavras do Evangelho: Não leveis ouro, nem prata, nem alforje…, Francisco teve um gesto insólito: para mostrar que nada tem valor quando se antepõe a Deus, despojou-se das suas roupas e do seu cinturão de couro, vestiu um basto saial, cingiu-se com uma corda e pôs-se a percorrer os caminhos, confiado na Providência.

A pobreza é uma virtude cristã que o Senhor pede a todos – religiosos, sacerdotes, mães de família, profissionais, estudantes… –, mas é evidente que os cristãos que estão no meio do mundo devem vivê-la de um modo bem diferente de como a viveu São Francisco e de como a vivem os religiosos que, pela sua vocação, devem dar um testemunho de certo modo público e oficial da sua consagração a Deus. O mesmo acontece com as demais virtudes cristãs – a temperança, a obediência, a humildade, a laboriosidade… –, que, sendo virtudes que devem ser vividas por todos os que querem seguir a Cristo, cada um deve aprender a viver de acordo com a sua vocação.

A pobreza do cristão corrente tem por base “o desapego, a confiança em Deus, a sobriedade, a disposição de compartilhar”3. O simples leigo deve aprender – como se aprende um caminho, uma rota que se deseja seguir – a compatibilizar “dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque – feita de coisas concretas –, que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, desejando saturar-se de amor a Deus e depois dar a todos desse mesmo amor”4; e, ao mesmo tempo, a sua condição secular, que lhe exige que seja “mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com quem se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas, a fim de resolver os problemas da vida humana e estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades”5.

A virtude da pobreza e do desprendimento traduz-se na minha vida em pormenores concretos? Amo-a e pratico-a dentro das minhas condições pessoais? Estou plenamente convencido de que, sem ela, não posso seguir a Cristo? Posso dizer “sou verdadeiramente pobre em espírito”, por estar realmente desprendido daquilo que uso…, ainda que tenha bens, dos quais devo ser um simples administrador que prestará contas a Deus?

“Desapega-te dos bens do mundo. – Ama e pratica a pobreza de espírito. Contenta-te com o que basta para passar a vida sóbria e temperadamente.

“– Senão, nunca serás apóstolo”6.

II. AS PALAVRAS DO SENHOR ressoam em todos os tempos: Não podeis servir a Deus e às riquezas7. É impossível agradar a Deus, levá-lo por todos os caminhos da terra, se ao mesmo tempo não estamos dispostos a algumas renúncias – às vezes custosas – na posse e no gozo dos bens materiais. Esse aviso do Senhor pode parecer estranho numa época em que um desmedido afã de comodidades alimenta diariamente a cobiça das pessoas e das famílias. São muitos os que aspiram obsessivamente a ter mais, a gastar mais, a conseguir o maior número de prazeres possíveis, como se esse fosse o fim do homem na terra.

Na prática, essa pobreza real tem muitas manifestações. Em primeiro lugar, estar desprendidos dos bens materiais, desfrutando deles como bondade criada de Deus que são, mas sem considerar necessárias para a saúde e para o descanso coisas de que podemos prescindir com um pouco de boa vontade. “Temos que ser exigentes conosco na vida cotidiana, para não inventar falsos problemas, necessidades artificiais que, em último termo, procedem da arrogância, do capricho, de um espírito comodista e preguiçoso. Devemos caminhar para Deus a passo rápido, sem bagagem e sem pesos mortos que dificultam a marcha”8. Essas necessidades artificiais podem referir-se a instrumentos de trabalho, artigos esportivos, peças de vestuário, viagens de lazer bizarras, carros sempre do último modelo, objetos eletrônicos sofisticados, etc., etc.

Santo Agostinho aconselhava aos cristãos do seu tempo: “Procurai o suficiente, procurai o que basta. O resto é aflição, não alívio; esmaga, não levanta”9. Como o bispo de Hipona conhecia bem o coração humano! Porque a verdadeira pobreza cristã é incompatível com o supérfluo, com o excessivo. Se se desse esse apetite desordenado…, indicaria que a vida espiritual está deslizando a passo rápido para a tibieza, para a falta de amor.

A pobreza manifesta-se em cumprir acabadamente os afazeres profissionais; em cuidar dos instrumentos de trabalho – nossos ou dos outros –, da roupa, do lar modestamente instalado…; em evitar gastos desproporcionados, ainda que quem os pague seja a empresa onde trabalhamos; em “não considerar – de verdade – coisa alguma como própria”10; em escolher para nós o pior, se a escolha passa inadvertida11 (quantas oportunidades na vida familiar!); em evitar gastos pessoais motivados pelo capricho, pela vaidade, pela ânsia de luxo, pela comodidade; em sermos austeros conosco – na comida e na bebida – e sempre generosos com os outros.

Certo dia, São Francisco mandou erguer na capela do convento uma grande cruz e, ao colocá-la, disse aos seus frades: “Este deve ser o vosso livro de meditação”. O Poverello de Assis tinha compreendido bem onde estavam as verdadeiras riquezas da vida e o caráter relativo dos bens terrenos. Oxalá cheguemos a amar a virtude da pobreza com verdadeira paixão.

III. DA POBREZA DERIVAM muitos frutos. Em primeiro lugar, a alma prepara-se para os bens sobrenaturais e o coração dilata-se para ocupar-se sinceramente dos outros.

Peçamos hoje ao Senhor, por intercessão de São Francisco, a graça de compreendermos com maior profundidade que a pobreza cristã, vivida até às suas últimas conseqüências, é um dom que já tem o seu prêmio nesta vida. O Senhor dá à alma desprendida uma especial alegria, mesmo que lhe chegue a faltar o que lhe parece mais necessário. “Muitos se sentem infelizes, precisamente por terem demasiado de tudo. – Os cristãos, se verdadeiramente se comportam como filhos de Deus, poderão passar incomodidades, calor, fadiga, frio… Mas jamais lhes faltará a alegria, porque isso – tudo! –, quem o dispõe ou permite é Ele, e Ele é a fonte da verdadeira felicidade”12.

A verdadeira pobreza permite que nos desprendamos de nós mesmos para nos entregarmos a Cristo; é uma forma suprema de liberdade, que nos abre sem reservas nem restrições à amorosa Vontade de Deus, como nos ensina o próprio Cristo. Para amá-la – querermos ser pobres, quando tudo parece induzir-nos a querer ser ricos13 –, é necessário compreendermos bem que a pobreza enquanto virtude – como acontece com todas as virtudes – é algo bom e positivo: situa o homem em condições de viver segundo o querer de Deus, servindo-se dos bens materiais para conquistar o Céu e ajudar o mundo a ser mais justo, mais humano. “Divitiae, si affluant, nolite cor apponere – Se vierem às tuas mãos as riquezas, não queiras pôr nelas o teu coração. – Anima-te a empregá-las generosamente. E, se for preciso, heroicamente.

“– Sê pobre em espírito!”14

A virtude da pobreza é conseqüência da vida de fé. Na Sagrada Escritura, a pobreza expressa a condição de quem se colocou absolutamente nas mãos de Deus, deixando nelas as rédeas da sua vida, sem querer outra segurança. É a retidão de espírito de quem não quer depender dos bens da terra, ainda que os possua. É o firme propósito de não ter senão um só Senhor, porque ninguém pode servir a dois senhores15. Quando servimos as riquezas, o dinheiro, os bens terrenos – sejam de que tipo forem –, todos eles se convertem em ídolos. É essa idolatria da qual São Paulo dizia aos cristãos que nem sequer deveria ser mencionada entre eles.

Muitos cristãos vêem-se hoje tentados por essa idolatria moderna do consumo, que os leva a esquecer a imensa riqueza do amor de Deus. Nessa sociedade manietada e verdadeiramente carente, a nossa vida sóbria e desprendida servirá de fermento para levá-la a Deus, como São Francisco fez no seu tempo.

Ao terminarmos a nossa oração, pedimos ao Santo de Assis, com palavras de João Paulo II, que saibamos ser esse fermento no meio do mundo. Assim pedia o Papa diante do túmulo onde repousam as relíquias do Santo: “Tu, que tanto aproximaste de Cristo a tua época, ajuda-nos a aproximar de Cristo a nossa, os nossos tempos difíceis e críticos. Ajuda-nos! Aproximamo-nos do ano 2000 depois de Cristo. Não serão tempos que nos preparem para um renascimento de Cristo, para um novo Advento?”16 A Virgem Nossa Senhora há de ensinar-nos a ser protagonistas deste novo renascer, mediante uma vida sóbria e austera.

(1) Dante Alighieri, A divina comédia, Paraíso, XI, 5, 54; (2) cfr. São Francisco de Assis, Testamento de Sena, 4; (3) S. C. para a Doutrina da Fé, Instr. Sobre a liberdade cristã e a libertação, 22-III-1986, 66; (4) São Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 110; (5) ib.; (6) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 631; (7) Lc 16, 13; (8) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 125; (9) Santo Agostinho, Sermão 85, 6; (10) cfr. São Josemaría Escrivá, Forja, n. 524; (11) cfr. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 635; (12) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 82; (13) Conferência Episcopal Espanhola, Instr. Past. La Verdad os hará libres, 20-XI-1990, n. 18; (14) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 636; (15) cfr. Mt 6, 24; (16) João Paulo II, Homilia em Assis, 5-XI-1978.

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