A reflexão do padre Valdecir


Sic et Non Podemos, os cristãos, dizer Sim e Não nas eleições?

O inesperado posicionamento partidário de uma das regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNBB, exigiu da instituição um esclarecimento sobre sua posição no atual momento eleitoral. Foi reafirmado o compromisso da Igreja Católica com a vida em todas as suas dimensões, sem no entanto tirar do eleitor o direito de discernir e escolher livremente.

Nesse contexto, proponho-me a discutir algumas contradições verificadas no seio de minha querida Igreja. Não da CNBB, nem das comunidades em geral. Mas da ala conservadora que sempre desencorajou a minha geração a tomar parte no engajamento político, sob a argumentação de que devemos cuidar da espiritualidade, evitando transformar o Evangelho de nosso Senhor num evangelho terreno.

Os mesmos defensores da neutralidade, que têm feito oposição sistemática a uma opção pelos pobres em nome da universalidade da Palavra de Deus, agora mostram que têm lado e fazem sua aparição no espectro político partidário da pior forma. Deixam-se instrumentalizar pelo comitê de campanha de uma das candidaturas à presidência da república. Em nome da defesa da vida, emprestam-lhe o tema da oposição à descriminalização do aborto como bandeira quase exclusiva. Um assunto controverso entre o povo cristão, com forte potencial para a manipulação, que cai como uma bomba na campanha de Dilma Rousseff, a qual acusam pretender institucionalizar a agressão à vida, caso seja eleita. Assunto chancelado e amplificado pela velha mídia impressa e televisiva que outrora atacava a Igreja, ávida por escândalos e sempre atenta a qualquer sinal de obscurantismo, tal como, pasmem, ser contra o aborto.

Uma obra de Pedro Abelardo, do séc. XII, cujo título reproduzimos acima, apresenta uma lista de opiniões aparentemente contraditórias (Sim e Não) dos célebres intelectuais cristãos do primeiro milênio, que promoveram com maestria a inculturação do evangelho no Ocidente. O autor medieval mostra claramente que tais contradições, longe de serem algo negativo, devem levar a um aprofundamento da busca da verdade. No tema que nos ocupa, cabe-nos, a nós cristãos, entender o Sim e o Não dado à luta político-partidária nessas eleições. Deixar aparecer a verdade sobre nossas opções no campo político.

O caso da luta contra a descriminalização do aborto é instrutivo e explicita o caráter meramente aparente da neutralidade reivindicada e historicamente incentivada por alguns líderes e grupos cristãos. São conhecidas algumas experiências históricas na América do Sul. Em dois casos emblemáticos, no Brasil e no Chile da segunda metade do século passado, em nome dos valores universais da pátria e da família, com o apoio mais ou menos explícito de setores conservadores da Igreja, foram gestadas e implantadas ditaduras sanguinárias, em favor de interesses particulares inconfessados.

Não podemos nos posicionar em favor da vida amparados unicamente por uma visão biologista. Os recentes conhecimentos da física e da química nos ajudam a entender que a vida seria impossível sem as condições estruturais e materiais necessárias para o seu surgimento e evolução. Portanto, defender a vida é mais que ser contra o aborto. É também defender um modelo de estado voltado para toda a população, de modo especial aos pobres, que de mil maneiras foram desumanizados ao longo da história do Brasil; e dialogar com os movimentos populares a fim de definir os rumos do país; fortalecer as instituições do estado e as empresas estatais estratégicas, para que a vida do povo não fique entregue aos interesses dos mercados; promover a integração da América Latina a fim de enfrentar a tirania do norte global e combater toda forma de preconceito contra os pobres.

Meus irmãos católicos, que em nome da defesa da vida entraram de cheio e de última hora na política, deverão agora dizer se de fato estão interessados na militância, ou se vão fechar os olhos aos prementes temas de interesse do povo brasileiro, para além de uma quase abstrata e redutivista luta pela vida. E se ainda vão continuar defendendo a neutralidade na política que recomendaram à minha geração ao longo dos últimos trinta anos.

Valdecir Luiz Cordeiro

Padre da Arquidiocese de Porto Velho, doutorando em Teologia Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia FAJE, em Belo Horizonte.

E-mail: valdecirluiz@hotmail.com

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