Comentários das Leituras de 13 e 14/11/10 – com o atraso do feri adão


Evangelho: Lucas 18, 1-8

Aleluia, aleluia, aleluia.

Pelo evangelho o Pai nos chamou, a fim de alcançarmos a glória de nosso Senhor Jesus Cristo (2Ts 2,14).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas:

1 Jesus propôs aos seus discípulos uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.

2 Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma.

3 Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com freqüência à sua presença para dizer-lhe: Faze-me justiça contra o meu adversário.

4 Ele, porém, por muito tempo não o quis. Por fim, refletiu consigo: Eu não temo a Deus nem respeito os homens;

5 todavia, porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar.

6 Prosseguiu o Senhor: Ouvis o que diz este juiz injusto?

7 Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los?

8 Digo-vos que em breve lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Bem depressa… (Lc 18, 1-8)

Nos dois pólos da parábola, uma pobre viúva injustiçada e um juiz iníquo. Nada mais atual! Pobres espoliados de seus direitos e magistrados corrompidos…

E o tempo que passa. Dia após dia. Semana após semana. Ano após ano. Da parte do juiz, a mesma iniquidade. Do lado da viúva, a invencível perseverança…

Gosto de imaginar que aquela pobre mulher tinha alugado uma terrinha, ou um imóvel, parte da herança deixada pelo finado marido, e o inquilino ganancioso se recusava a pagar os aluguéis. Por isso, ia ao juiz e não desanimava de reivindicar os seus direitos. Até que o homem mau se cansa. É sempre assim. O bem é incansável. O mal tem fôlego curto. E o juiz, que sabe muito bem de sua maldade – “Não temo a Deus nem respeito os homens!” (cf. v. 4) -, começa a temer por uma reação mais forte da pobre viúva e, quando menos se esperava, dá-lhe uma sentença favorável. Faz-se, enfim, a justiça.

A situação da parábola é, agora, utilizada por Jesus para uma lição magistral: se um homem tão ruim acabou fazendo justiça, diante da insistência da velhinha, quanto mais nos fará justiça o Pai do céu, que é bom e justo? Logo, da parte de Deus nada temos a temer. Mas…

Sim, o problema está do nosso lado: somos capazes de perseverar na oração até o tempo da resposta de Deus? Ora, ninguém persevera se não tem a fé. Daí a dúvida de Jesus (a única dúvida do Mestre em todos os Evangelhos!): “Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso ainda achará fé sobre a terra?”

Em todo caso, Jesus nos anima com a garantia: Deus nos atenderá “bem depressa”. Mesmo que não possamos avaliar exatamente o que seja “bem depressa” para um Deus que vive imerso na eternidade (onde não há relógios nem minutos), podemos estar certos de que seremos atendidos “nesta vida”. Mergulhados na História até o pescoço, temos nosso olhar voltado para o eterno. Peregrinamos na terra, mas somos cidadãos do céu. Não devemos achar caro, como preço da eternidade com Deus, o tempo de espera (e esperança) que gastamos cá em baixo.

Como diz o Senhor no Apocalipse: “Sim, eu venho em breve.” A este anúncio, nós respondemos: “Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22, 20.)

Orai sem cessar: “Antes mesmo que clamem, eu lhes responderei;

quando ainda estiverem falando, eu os terei ouvido! (Is 65, 24)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja

Sermão 115, 1; PL 38, 655 (a partir da trad. de Delhougne, Les Pères commentent, p. 447)

«Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»

Haverá método mais eficaz para nos encorajar à oração do que a parábola do juiz iníquo que o Senhor nos contou? Evidentemente, o juiz iníquo nem temia a Deus nem respeitava os homens. Não experimentava qualquer benevolência pela viúva que a ele recorria e, no entanto, vencido pelo aborrecimento, acabou por a escutar. Se, portanto, ele atendeu esta mulher que o importunava com as suas súplicas, como não seremos nós atendidos por Aquele que nos encoraja a apresentar-Lhe as nossas? Foi por isso que o Senhor nos propôs esta comparação, conseguida por contraste, para nos dar a perceber que é preciso «orar sempre, sem desfalecer». E depois acrescentou: «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?»

Se a fé desaparecer, a oração extingue-se. Com efeito, quem poderia rezar para pedir aquilo em que não crê? Eis pois o que o Apóstolo Paulo diz, exortando-nos à oração: «Todo o que invocar o nome do Senhor será salvo». Depois, para mostrar que a fé é a fonte da oração e que o ribeiro não pode correr se a fonte estiver seca, acrescenta : «Ora, como hão de invocar Aquele em Quem não acreditaram?» (Rom 10,13-14) Acreditemos, pois, para podermos orar e oremos para que a fé, que é o princípio da nossa oração, nunca nos venha a faltar. A fé expande a oração e a oração, ao expandir-se, obtém por seu turno o fortalecimento da fé.

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TEMPO COMUM. TRIGÉSIMA SEGUNDA SEMANA. SÁBADO


81. A ORAÇÃO DE PETIÇÃO E A MISERICÓRDIA DIVINA

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– A nossa confiança na oração de petição tem o seu fundamento na infinita bondade de Deus.

– Recorrer sempre à misericórdia divina.

– A intercessão da Virgem.

I. O SENHOR MOSTROU-NOS de muitas maneiras a necessidade da oração e a alegria com que acolhe as nossas preces. Ele próprio roga ao Pai para nos dar exemplo do que devemos fazer. Deus sabe bem que cada minuto da nossa existência é fruto da sua bondade, que estamos necessitados de tudo, que não temos nada. E, justamente porque nos ama com amor infinito, quer que reconheçamos a nossa dependência, pois a certeza das nossas limitações leva-nos a não nos separarmos um só instante sequer da sua proteção amorosa.

Para nos animar a esta oração de súplica, Jesus quis dar-nos todas as garantias possíveis, ao mesmo tempo que nos mostrava as condições a que devem obedecer sempre as nossas preces. O Evangelho da Missa fala-nos de uma viúva que clamava sem cessar perante um juiz iníquo; este resistia a atendê-la1, mas, pela insistência da mulher, acabou por prestar-lhe ouvidos. Deus aparece na parábola em contraste com o juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos que clamam a ele dia e noite, e tardará em socorrê-los? Se esse juiz que era injusto e iníquo decidiu finalmente fazer justiça, o que não fará Aquele que é infinitamente bom, justo e misericordioso?

Este é o tema central da parábola: a misericórdia divina ante a indigência dos homens. A atitude do juiz foi desde o princípio de resistência à viúva, mas a de Deus, pelo contrário, é sempre paternal e acolhedora. Por outro lado, as razões que levaram o juiz a atender a viúva eram superficiais e pouco consistentes. Por fim disse de si para si: Ainda que eu não tema a Deus nem respeite os homens, no entanto, visto que esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que não continue a atormentar-me. A “razão” de Deus, pelo contrário, é o seu amor infinito.

Jesus conclui assim a parábola: Prestai atenção ao que diz este juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos que clamam a ele dia e noite, e tardará em socorrê-los? Santo Agostinho comenta: “Portanto, devem estar bem confiantes os que pedem a Deus com perseverança, porque Ele é a fonte da justiça e da misericórdia”2. Se a constância abranda um juiz “capaz de todos os crimes, com quanto maior razão devemos prostrar-nos e rogar ao Pai das misericórdias, que é Deus?”3

O amor dos filhos de Deus deve expressar-se na constância e na confiança, pois “se às vezes Deus tarda em dar, encarece os seus dons, mas não os nega. A consecução de algo longamente esperado é mais doce… Pede, busca, insiste. Pedindo e buscando, obténs o crescimento necessário para alcançar o dom. Deus reserva-te o que não te quer dar imediatamente para que aprendas a desejar vivamente as coisas grandes. Portanto, convém orar sempre e não desfalecer”4. Não devemos desanimar nunca nas nossas súplicas a Deus.

“Meu Deus, ensina-me a amar! – Meu Deus, ensina-me a orar!”5 Ambas as coisas coincidem.

II. A ORAÇÃO PERSEVERANTE do justo pode muito6. E tem tanto poder porque pedimos em nome de Jesus7. Ele encabeça a nossa petição e atua como Mediador diante de Deus Pai8; e o Espírito Santo suscita na nossa alma a súplica, quando nem sequer sabemos o que pedir. Quem tem poder de conceder pede conosco para que sejamos atendidos: que maior segurança podemos desejar? Somente a nossa incapacidade de receber limita os dons de Deus. Como quando se vai a uma fonte com um recipiente pequeno ou esburacado.

O Senhor é compassivo e misericordioso9 com as nossas deficiências e com os nossos males. A Sagrada Escritura mostra-nos com freqüência o Senhor como Deus de misericórdia, e serve-se para isso de expressões comovedoras: Ele tem entranhas de misericórdia e ama com muita misericórdia10, como as mães… São Tomás, que insiste freqüentemente em que a onipotência divina resplandece de maneira especial na misericórdia11, ensina que ela é em Deus abundante e infinita: “Dizer que alguém é misericordioso – ensina o Santo – é como dizer que tem o coração cheio de misérias, isto é, que ante as misérias alheias experimenta a mesma sensação de tristeza que experimentaria se fossem dele mesmo; por essa razão, esforça-se por remediar a tristeza alheia como se fosse própria, e este é o efeito da misericórdia. Pois bem, não compete a Deus entristecer-se pela miséria de outro; mas remediar as misérias, entendendo por miséria um defeito qualquer, é o que mais compete a Deus”12.

Em Cristo, ensina o Papa João Paulo II, a misericórdia de Deus tornou-se particularmente visível. “Ele próprio a encarna e personifica; em certo sentido, Ele próprio é a misericórdia”13. Conhece-nos bem e tem compaixão das nossas doenças e de tantas penas que a vida não raras vezes traz consigo… “Nós – cada um de nós – somos sempre muito interesseiros; mas Deus Nosso Senhor não se importa de que, na Santa Missa, exponhamos diante dEle todas as nossas necessidades. Quem não tem coisas que pedir? Senhor, essa doença… Senhor, esta tristeza… Senhor, aquela humilhação que não sei suportar por amor de Ti…

“Queremos o bem, a felicidade e a alegria das pessoas da nossa casa; oprime-nos o coração a sorte dos que padecem fome e sede de pão e de justiça; dos que experimentam a amargura da solidão; dos que, no fim dos seus dias, não recebem um olhar de carinho nem um gesto de ajuda.

“Mas a grande miséria que nos faz sofrer, a grande necessidade a que queremos pôr remédio é o pecado, o afastamento de Deus, o risco de que as almas se percam por toda a eternidade”14. O estado da alma dos que convivem conosco deve ser a nossa primeira preocupação, o pedido mais urgente que elevamos diariamente ao Senhor, certos de que nos escutará.

III. O POVO CRISTÃO sentiu-se movido, ao longo dos séculos, a apresentar as suas súplicas a Deus através de Santa Maria. Em Caná da Galiléia, Nossa Senhora manifestou o seu poder de intercessão ante uma necessidade material de uns noivos que possivelmente não souberam calcular bem o número de pessoas que compareceriam à festa de bodas. O Senhor determinou que a sua hora fosse adiantada por um pedido de sua Mãe. “Na vida pública de Jesus – diz o Concílio Vaticano II –, a sua Mãe aparece significativamente já desde o começo, quando, para as núpcias em Caná da Galiléia, movida de misericórdia, conseguiu por sua intercessão o início dos sinais de Jesus”15. Desde o princípio, a obra redentora de Jesus foi acompanhada pela presença de Maria. Naquela ocasião, não só se solucionou a falta de vinho como – o Evangelista menciona-o expressamente – o milagre confirmou a fé daqueles que seguiam Jesus mais de perto. Por este modo deu Jesus princípio aos seus milagres em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele16.

A Virgem Santa Maria, sempre atenta às dificuldades e carências dos seus filhos, será o caminho por onde as nossas preces chegarão prontamente ao seu Filho. E Ela as corrigirá se estiverem um pouco desviadas. “Por que terão tanta eficácia os pedidos de Maria a Deus?”, pergunta-se Santo Afonso Maria de Ligório. E responde: “As orações dos santos são orações de servos, ao passo que as orações de Maria são orações de Mãe, de onde procede a sua eficácia e caráter de autoridade; e como Jesus ama imensamente a sua Mãe, Ela não pode pedir sem ser atendida […].

“Para conhecer bem a grande bondade de Maria, recordemo-nos do que diz o Evangelho […]. Faltava vinho, com a conseqüente aflição dos esposos. Ninguém pediu a Santa Maria que intercedesse perante o seu Filho em favor dos consternados esposos. Contudo, o coração de Maria, que não pode deixar de se compadecer dos desgraçados […], impeliu-a a encarregar-se por si mesma do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido […]. Se a Senhora agiu assim sem que lho pedissem, o que teria feito se lhe tivessem pedido?”17

Hoje, um sábado que procuramos dedicar especialmente a Nossa Senhora, é uma boa ocasião para recorrermos a Ela com mais freqüência e com mais amor. “Pede à tua Mãe, Maria, a José, ao teu Anjo da Guarda…, pede-lhes que falem com o Senhor, dizendo-lhe aquilo que, pela tua rudeza, não sabes expressar”18.

(1) Lc 18, 1-8; (2) Santo Agostinho, Catena Aurea, vol. VI, pág. 295; (3) Teofilacto, Catena Aurea, vol. VI, pág. 296; (4) Santo Agostinho, Sermão 61, 6-7; (5) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 66; (6) Ti 5, 16; (7) cfr. Jo 15, 16; 16, 26; (8) cfr. São Cirilo de Jerusalém, Comentário ao Evangelho de São João, 16, 23-24; (9) Ti 5, 11; (10) cfr. Êx 34, 6; Joel 2, 13; Lc 1, 78; (11) cfr. São Tomás de Aquino, Suma teológica, I, q. 21, a. 4; II-II, q. 30, a. 4; (12) São Tomás de Aquino, Suma teológica, I, q. 21, a. 3; (13) João Paulo II, Carta Encíclica Dives in misericordia, 30.11.80, 2; (14) São Josemaría Escrivá, Amar a la Iglesia, 2ª ed., Palabra, Madrid, 1986, págs. 77-78; (15) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 58; (16) Jo 2, 11; (17) Santo Afonso Maria de Ligório, Sermões abreviados, 48; (18) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 272.

Evangelho: Lucas 21, 5-19

Aleluia, aleluia, aleluia.

Levantai vossa cabeça e olhai, pois a vossa redenção se aproxima! (Lc 21,28).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas:

5 Como lhe chamassem a atenção para a construção do templo feito de belas pedras e recamado de ricos donativos, Jesus disse:

6 Dias virão em que destas coisas que vedes não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído.

7 Então o interrogaram: Mestre, quando acontecerá isso? E que sinal haverá para saber-se que isso se vai cumprir?

8 Jesus respondeu: Vede que não sejais enganados. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e ainda: O tempo está próximo. Não sigais após eles.

9 Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos, não vos assusteis; porque é necessário que isso aconteça primeiro, mas não virá logo o fim.
10 Disse-lhes também: Levantar-se-ão nação contra nação e reino contra reino.

11 Haverá grandes terremotos por várias partes, fomes e pestes, e aparecerão fenômenos espantosos no céu.

12 Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de mim.

13 Isto vos acontecerá para que vos sirva de testemunho.

14 Gravai bem no vosso espírito de não preparar vossa defesa,

15 porque eu vos darei uma palavra cheia de sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer os vossos adversários.

16 Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós.

17 Sereis odiados por todos por causa do meu nome.

18 Entretanto, não se perderá um só cabelo da vossa cabeça.

19 É pela vossa constância que alcançareis a vossa salvação.

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Sereis perseguidos… (Lc 21, 5-19)

Sei que muitos “fiéis” têm preferência por outro tipo de Evangelho: aquele que fala de pardais e lírios do campo, da tal recompensa no outro mundo, multiplicada por cem…

Entretanto, o Evangelho de hoje, com as tonalidades típicas do final do Ano Litúrgico, aponta em outra direção. Jesus anuncia uma catástrofe, isto é, um movimento para baixo, uma decadência geral, quando já não ficará “pedra sobre pedra”.

Nós somos construtores: desde os jardins suspensos de Babilônia, passando pelas pirâmides do Egito e a hidrelétrica de Itaipu, experimentamos um especial prazer em edificar monumentos, empilhando pedra sobre pedra. Pena que tudo cairá…

Da destruição do Templo de Jerusalém, com suas pedras imponentes, Jesus salta rapidamente para um outro Templo: seu próprio corpo, que logo será destruído impiedosamente em sua Paixão e Morte. Mas não para nesse corpo de carne. Logo se projeta para outro “Corpo” seu: a Igreja. E a cota que lhe cabe é, nua e crua, a perseguição.

Aqui e ali, tenho encontrado “fiéis” lamuriosos, reclamando de perseguições, como se a Igreja estivesse à espera de aplausos e confetes. Quanta inocência! Como comenta Hans Urs von Balthasar, “a perseguição não será um episódio ocasional, mas um “existencial” para a Igreja de Cristo e para os cristãos individuais. Sobre este ponto, Jesus é formal (vv. 12-17). VÓS sereis perseguidos. VÓS, os representantes da Igreja, TODA a Igreja”.

Basta uma olhadela panorâmica sobre estes dois mil anos de vida eclesial para contemplar a profecia cumprida: prisões, condenações, traições pelos próprios familiares, arenas com leões e touros, em suma: o martírio.

Enquanto espera, que deve fazer o cristão? O mesmo von Balthasar dá sua resposta: “Trabalhar!” Trabalhar como Paulo, que suou a camisa para comer seu pão. O que se pede a cada cristão é uma espécie de compromisso com o mundo “que Deus ama”!

E Jesus observou: “Não se perderá um só cabelo de vossa cabeça…” (Lc 21, 18)

Orai sem cessar: “O meu socorro vem do Senhor!” (Sl 121, 2)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Santo Ambrósio (c. 340-397), Bispo de Milão e Doutor da Igreja

Comentário ao Evangelho segundo São Lucas X, 6-8 (SC 52, pp. 158 ss., rev.)

A vinda de Cristo

«Não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído». Estas palavras diziam respeito ao Templo edificado por Salomão […], uma vez que tudo o que é construído pelas nossas mãos sucumbe ao desgaste ou à deterioração e está sujeito a ser derrubado pela violência ou destruído pelo fogo. […] Mas dentro de nós também existe um templo que se desmorona se a fé faltar, em particular se em nome de Cristo procurarmos em vão apoderar-nos de certezas interiores, e talvez seja esta interpretação a mais útil para nós. Com efeito, de que servirá saber o dia do Juízo? De que me servirá, tendo consciência de todos os meus pecados, saber que o Senhor virá um dia, se Ele não vier à minha alma, não crescer no meu espírito, se Cristo não vier a mim, se Cristo não falar em mim? É a mim que Cristo deve vir, e é em mim que deve realizar-se a Sua vinda.

Ora, a segunda vinda de Cristo terá lugar no nadir do mundo, quando pudermos dizer que «o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo» (Gl 6, 14). […] Para quem lhe morreu o mundo, Cristo é eterno; para esse, o Templo é espiritual, a Lei espiritual, a própria Páscoa espiritual. […] Então, para esse, realiza-se a presença da sabedoria, a presença da virtude e da justiça, a presença da redenção, porque Cristo na verdade morreu uma só vez pelos pecados de todos a fim de resgatar todos os dias os pecados de todos.

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TEMPO COMUM. TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO. CICLO C

84. TRABALHAR ENQUANTO O SENHOR ESTÁ FORA

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– A espera da vida eterna não nos exime de uma vida de trabalho intenso.

– O trabalho, um dos maiores bens do homem.

– A ocupação profissional, realizada de olhos postos em Deus, não nos afasta do nosso fim último: deve aproximar-nos dEle.

I. NESTES ÚLTIMOS DOMINGOS, a liturgia convida-nos a meditar nos últimos fins do homem, no seu destino além da morte. Na primeira Leitura de hoje1, o profeta Malaquias fala com acentos fortes dos últimos tempos: Porque eis que virá um dia semelhante a uma fornalha… E Jesus recorda-nos no Evangelho da Missa2 que devemos estar vigilantes ante a sua chegada no fim do mundo: Vede, não sejais enganados…

Alguns cristãos da primitiva Igreja julgaram que essa chegada gloriosa do Senhor era iminente. Pensaram que o fim dos tempos estava próximo e por isso, entre outras razões, descuraram o trabalho e andavam muito ocupados em não fazer nada e meter-se em tudo. Deduziram que, dada a sua precariedade, não valia a pena dedicarem-se plenamente aos assuntos terrenos. Por isso São Paulo repreende-os, como lemos na segunda Leitura da Missa3, e recorda-lhes a vida de trabalho que levou entre eles, apesar da sua intensa dedicação ao Evangelho; volta a repetir-lhes a norma de conduta que já tinha aconselhado: Porque, quando ainda estávamos convosco, vos declaramos que, se alguém não quer trabalhar, também não coma. E aos que estavam entregues à ociosidade, recomenda-lhes que comam o seu pão, trabalhando pacificamente.

A vida é realmente muito curta e o encontro com Jesus está próximo. Isto ajuda-nos a desprender-nos dos bens que temos de utilizar e a aproveitar o tempo; mas não nos exime de maneira nenhuma de dedicar-nos plenamente à nossa profissão no seio da sociedade. Mais ainda: é com os nossos afazeres terrenos, ajudados pela graça, que temos de ganhar o Céu.

O Magistério da Igreja recorda o valor do trabalho e exorta “os cristãos, cidadãos da cidade temporal e da cidade eterna, a procurarem desempenhar fielmente as suas tarefas temporais, guiados pelo espírito do Evangelho”. Para imitar Cristo, que trabalhou como artesão a maior parte da sua vida, longe de descurar as tarefas temporais, os cristãos “estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação a que cada um foi chamado”4.

Assim deve ser a nossa atuação no meio do mundo: olhar freqüentemente para o Céu, para a Pátria definitiva, mas ter ao mesmo tempo os pés bem assentados sobre a terra, trabalhar com intensidade para dar glória a Deus, atender o melhor possível às necessidades da família e servir a sociedade a que pertencemos. Sem um trabalho sério, feito com consciência, é muito difícil, para não dizer impossível, santificar-se no meio do mundo.

II. A POSSIBILIDADE de trabalhar é um dos grandes bens recebidos de Deus, “é uma maravilhosa realidade que se nos impõe como uma lei inexorável a que todos, de uma maneira ou de outra, estão submetidos, ainda que alguns pretendam fugir-lhe. Aprendei-o bem: esta obrigação não surgiu como uma seqüela do pecado original nem se reduz a um achado dos tempos modernos. Trata-se de um meio necessário que Deus nos confia aqui na terra, dilatando os nossos dias e fazendo-nos participar do seu poder criador, para que ganhemos o nosso sustento e simultaneamente colhamos frutos para a vida eterna (Jo 4, 36)”5.

O trabalho é o meio ordinário de subsistência e o campo privilegiado para o desenvolvimento das virtudes humanas: a rijeza, a constância, o otimismo por cima das dificuldades… A fé cristã impele-nos além disso a “comportar-nos como filhos de Deus com os filhos de Deus”6, a viver um “espírito de caridade, de convivência, de compreensão”7, a tirar da vida “o apego à nossa comodidade, a tentação do egoísmo, a tendência para a exaltação pessoal”8, a “mostrar a caridade de Cristo e os seus resultados concretos de amizade, de compreensão, de afeto humano, de paz”9. Pelo contrário, a preguiça, a ociosidade, o trabalho mal acabado trazem graves conseqüências. A ociosidade ensina muitas maldades10, pois impede a perfeição humana e sobrenatural do homem, debilita-lhe o caráter e abre as portas à concupiscência e a muitas tentações.

Durante séculos, muitos pensavam que, para serem bons cristãos, bastava-lhes uma vida de piedade sem conexão alguma com as suas ocupações profissionais no escritório, na Universidade, no campo… Muitos tinham, além disso, a convicção de que os afazeres temporais, os assuntos profanos em que o homem está imerso de uma forma ou de outra, eram um obstáculo para o encontro com Deus e para uma vida plenamente cristã11. A vida oculta de Jesus veio ensinar-nos o valor do trabalho, da unidade de vida, pois com o seu trabalho diário o Senhor estava também redimindo o mundo.

É no meio do trabalho que procuramos todos os dias encontrar o Senhor (pedindo-lhe ajuda, oferecendo-lhe a perfeição com que procuramos executar as tarefas que temos entre mãos, sentindo-nos participantes da Criação em tudo o que fazemos…) e exercer a caridade (cultivando as virtudes da convivência com os que estão ao nosso lado, prestando-lhes esses pequenos serviços que tanto se agradecem, rezan-do por eles e pelas suas famílias, ajudando-os a resolver os seus problemas…) Procuramos o olhar do Senhor no nosso trabalho ordinário? Procuramos que seja um olhar de alegria, pelo esmero com que trabalhamos, pelas virtudes que praticamos?

III. O TRABALHO não só não nos deve afastar do nosso último fim, dessa espera vigilante com a que a liturgia destes dias quer que nos mantenhamos alerta, como deve ser o caminho concreto para crescermos na vida cristã.

Para isso, o fiel cristão não deve esquecer que, além de ser cidadão da terra, também o é do Céu, e por isso deve comportar-se entre os outros de uma maneira digna da vocação a que foi chamado12, sempre alegre, irrepreensível e simples, compreensivo com todos13, bom trabalhador e bom amigo, aberto a todas as realidades autenticamente humanas. Quanto ao mais, irmãos – exortava São Paulo aos cristãos de Filipos –, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é santo, tudo o que é amável, tudo o que é de bom nome, qualquer virtude, qualquer coisa digna de louvor seja isso o objeto dos vossos pensamentos14.

Além disso, o cristão converte o seu trabalho em oração se procura a glória de Deus e o bem dos homens naquilo que realiza, se pede ajuda ao Senhor ao começar a sua tarefa e nas dificuldades que surgem, se lhe dá graças depois de concluir um assunto, ao terminar a jornada…, ut cuncta nostra oratio et operatio a te semper incipiat, et per te coepta finiatur…, para que as nossas orações e trabalhos sempre comecem e acabem em Deus. O trabalho é o caminho diário para o Senhor. “Por isso, o homem não se deve limitar a fazer coisas, a construir objetos. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor. Reconhecemos Deus não apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço. O trabalho é assim oração, ação de graças, porque nos sabemos colocados na terra por Deus, amados por Ele, herdeiros das suas promessas”15.

A profissão, meio de santidade para o cristão, é também fonte de graças para toda a Igreja, pois somos o corpo de Cristo e membros unidos a outros membros16. Quando alguém luta com espírito cristão por melhorar no seu trabalho, beneficia todos os membros do Corpo Místico na sua caminhada para o Senhor. “O suor e a fadiga, que o trabalho acarreta necessariamente na atual condição da humanidade, oferecem ao cristão e a cada homem, que foi chamado a seguir a Cristo, a possibilidade de participar no amor à obra que Cristo veio realizar (cfr. Jo 17, 4). Esta obra de salvação realizou-se através do sofrimento e da morte na Cruz. Suportando a fadiga do trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o homem colabora de certa maneira com o Filho de Deus na redenção da humanidade. Mostra-se verdadeiro discípulo de Jesus levando por sua vez a cruz de cada dia (cfr. Lc 9, 23) na atividade que foi chamado a realizar”17.

No exercício da nossa profissão, encontraremos naturalmente, sem assumir ares de mestres, inúmeras ocasiões de dar a conhecer a doutrina de Cristo: numa conversa amigável, no comentário a uma notícia que está na boca de todos, ao escutarmos a confidência de um problema pessoal ou familiar… O Anjo da Guarda, a quem tantas vezes recorremos, porá na nossa boca a palavra justa que anime, que ajude e facilite, talvez com o tempo, a aproximação mais direta de Cristo das pessoas que trabalham conosco.

Assim nós, os cristãos, esperamos a visita do Senhor: enriquecendo a alma nos nossos afazeres, ajudando os outros a pôr o olhar num fim mais transcendente. De maneira nenhuma empregando o tempo em não fazer nada, deixando de aproveitar os meios que o próprio Deus nos deu para ganharmos o Céu.

São José, nosso Pai e Senhor, há de ensinar-nos a santificar as nossas ocupações, pois ele, ensinando a Jesus a sua profissão, “aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção”18. Muito perto de José, encontraremos sempre Maria.

(1) Mal 4, 1-2; (2) Lc 21, 5-19; (3) 2 Tess 3, 7-12; (4) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 43; (5) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 57; (6) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 36; (7) São Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 35; (8) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 158; (9) ibid., n. 166; (10) Eclo 33, 29; (11) cfr. José Luis Illanes, A santificação do trabalho, Quadrante, São Paulo, 1982, págs. 31-43; (12) cfr. Fil 1, 27; 3, 6; (13) cfr. Fil 2, 3-4; 4, 4; 2, 15; 4, 5; (14) Fil 4, 8; (15) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 48; (16) 1 Cor 12, 27; (17) João Paulo II, Carta Encíclica Laborem exercens, 14.09.81, 27; (18) João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris custos, 15.08.89, 22.

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