Leituras de 21/11/10


ANO LITÚRGICO “C” – XXXIV SEMANA DO TEMPO COMUM

Domingo, 21 de novembro de 2010

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

Branco – Glória – Creio – Prefácio Próprio – Ofício da Solenidade

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Antífona: O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele glória e poder através dos séculos (Ap 5,12; 1,6).

Oração do Dia: Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Primeira Leitura: 2º Samuel 5, 1-3

Leitura do segundo livro de Samuel:

1 Todas as tribos de Israel vieram ter com Davi em Hebron e disseram,-lhe: Vê: não somos nós teus ossos e tua carne?
2 Já antes, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel. O Senhor te disse: és tu que apascentarás o meu povo e serás o chefe de Israel.
3 Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ter com o rei em Hebron. Davi fez com eles um tratado diante do Senhor e eles sagraram-no rei de Israel.

Palavra do Senhor.
Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 122/123

Quanta alegria e felicidade: vamos à casa do Senhor!

Que alegria quando ouvi que me disseram:
“Vamos à casa do Senhor!”
E agora nossos pés já se detêm,
Jerusalém, em tuas portas.

Para lá sobem as tribos de Israel,
as tribos do Senhor.
Para louvar, segundo a lei de Israel,
o nome do Senhor.
A sede da justiça lá está
e o trono de Davi.

 

Segunda Leitura: Colossenses 1, 12-20

Leitura da carta de são Paulo aos Colossenses:

12 Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos santos na luz.

13 Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado,

14 no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.

15 Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação.

16 Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele.

17 Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele.
18 Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas.

19 Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude.

20 e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus.
Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Evangelho: Lucas 23, 35-43

Aleluia, aleluia, aleluia.

É bendito aquele que vem vindo, que vem vindo em nome do Senhor; e o reino que vem seja bendito, ao que vem e a seu reino, o louvor! (Mc 11,9s).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas:

35 A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

36 Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

37 Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
38 Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.
39 Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

40 Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?

41 Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.

42 E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

43 Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.
Palavra da Salvação.
Glória a Vós, Senhor!

 

Hoje estarás comigo… (Lc 23, 35-43)

 

Deus é o Senhor do tempo. Para Ele, mil anos são como um dia (cf. Sl 90, 4). Sendo um Deus eterno, tudo acontece para Ele em um eterno HOJE. Nossa relação com o Senhor é sempre no presente. O passado já nos escapou. O futuro, nem sabemos se virá. A cada instante, vivemos para Deus em seu HOJE.

 

Foi assim com o ladrão, no Calvário, ao lado de Jesus. É verdade que nos acostumamos a chamá-lo de “bom ladrão”, talvez por oculto preconceito contra os demais ladrões. De fato, não havia muito coisa boa em um homem que passara a vida no crime. O infeliz não acumulara virtudes que pudesse apresentar a Jesus, na hora extrema, como uma espécie de fatura a ser cobrada. Em resumo, ele apenas devia… Uma conta impagável… Bastou, no entanto, uma simples petição: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres como rei!” De imediato, ouviu a resposta: “Ainda HOJE estarás comigo no Paraíso”.

 

Sei que os honestos protestam: “Não é justo! Afinal, de que me valeu praticar a virtude? De que me adiantaram tantos terços rezados em cima de grãos de milho? Que proveito me veio de ter fugido das farras e bebedeiras, se esse bandido chega ao fim e recebe o perdão?”

 

Uma reação típica do filho mais velho da parábola, incapaz de se alegrar com a acolhida amorosa que o Pai acabava de dar ao irmão caçula… E a terrível ilusão de que o céu seria algo merecido e, enfim, concedido por um Deus obrigado a pagar nossos investimentos. Como se o céu – isto é, a salvação – não fosse pura graça, puro dom!

 

De passagem, uma observação para aqueles que ainda creem em reencarnações, como necessário regresso ao mundo para pagar pecados e crimes de vidas anteriores, até chegar à purificação produzida pelos sofrimentos. Se existiu alguém, neste mundo, que de fato precisaria voltar e “pagar”, era aquele miserável ladrão. No entanto, diante de sua humilde súplica, toda a “conta” foi zerada. Naquele mesmo HOJE, estaria no Paraíso com Jesus. Como fica, afinal, a crença na reencarnação?

 

Não se merece a salvação. Não acumulamos créditos a serem cobrados do Senhor. “É por graça que fostes salvos” – diz o Apóstolo (cf. Ef 2, 5).

Orai sem cessar: “Junto ao Senhor se acha a misericórdia!” (Sl 130 [129], 7)

 

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:
São Gregório de Nissa (c. 335-395), monge e bispo
5.º Sermão da Santa Páscoa (PG 46, 683; Leccionário, p. 367 rev.)

«Pilatos disse: “Aqui está o vosso Rei”» (Jo 19,14).

Bendito seja Deus! Festejemos o Filho único, o Criador dos céus, que lá ascendeu após ter descido às profundezas do inferno, e que envolve a terra inteira com os raios da Sua luz. Festejemos o sepultamento do Filho único e a Sua Ressurreição de vencedor, o júbilo do mundo inteiro e a vida de todos os povos. […]

Tudo isto nos foi obtido assim que o Criador ressurgiu dos mortos, ao rejeitar a ignomínia e transformando, no Seu esplendor divino, o perecível em imperecível. E qual foi a ignomínia rejeitada? Isaías dá-nos a resposta: «Sem figura nem beleza, vimo-Lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens» (53, 2-3). E quando ficou Ele sem a Sua glória? Quando carregou aos ombros a madeira da cruz como troféu da Sua vitória sobre o diabo. Assim que Lhe foi posta na cabeça uma coroa de espinhos, a Ele, que coroa os Seus fiéis. Assim que foi revestido de púrpura Aquele que reveste de imortalidade os que renascem da água e do Espírito Santo. Assim que pregaram à madeira o Senhor da vida e da morte. […]

Aquele, porém, que ficou sem a Sua glória foi transfigurado na luz, e o júbilo do mundo despertou com o Seu corpo. […] «O Senhor é Rei, vestido de majestade» (Sl 93 (92), 1). De que majestade Se vestiu Ele? De incorruptibilidade, de imortalidade, do chamamento dos Apóstolos, da coroa da Igreja. […] São Paulo é disso testemunho, ao dizer: «É, de fato, necessário que este ser mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15, 53). E o salmista diz também: «O Teu trono, Senhor, está firme desde sempre, e Tu existes desde a eternidade; o Teu reino é um reino para toda a eternidade, e o Teu domínio estende-se por todas as gerações» (Sl 93 (92), 2; 145 (144), 13). E ainda: «O Senhor é Rei: alegre-se a terra e rejubile a multidão das ilhas!» (Sl 97 (96), 1). A Ele a glória e o poder, amém!

 

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TRIGÉSIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM. NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

91. O REINADO DE CRISTO

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Um reinado de justiça e de amor.

 

– Que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, na nossa vontade, em todas as nossas ações…

 

– Estender o Reino de Cristo.

 

I. O SENHOR SENTAR-SE-Á como rei para sempre, o Senhor abençoará o seu povo dando-lhe a paz1, recorda-nos uma das Antífonas da Missa.

A solenidade que celebramos hoje “é como uma síntese de todo o mistério salvífico”2. Com ela encerra-se o ano litúrgico: depois de termos celebrado todos os mistérios da vida do Senhor, apresenta-se agora à nossa consideração Cristo glorioso, Rei de toda a criação e das nossas almas. Ainda que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a de hoje foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus3.

Os textos da Missa salientam o amor de Cristo-Rei, que veio estabelecer o seu reinado, não com a força de um conquistador, mas com a bondade e a mansidão do pastor: Eis que eu mesmo irei buscar as minhas ovelhas, seguindo o seu rasto. Assim como um pastor segue o rasto do seu rebanho quando as ovelhas se encontram dispersas, assim eu seguirei o rasto das minhas ovelhas; e livrá-las-ei tirando-as de todos os lugares por onde se tenham dispersado no dia das nuvens tempestuosas e da escuridão4.

Foi com esta solicitude que o Senhor veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os e vendou-lhes as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. “Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. O Reino instaurado por Jesus Cristo atua como fermento e sinal de salvação a fim de construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário, inspirado nos valores evangélicos da esperança e da futura bem-aventurança a que todos estamos chamados. Por isso, no Prefácio da celebração eucarística de hoje, fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”5.
Assim é o Reino de Cristo, do qual somos chamados a participar e que somos convidados a dilatar mediante um apostolado fecundo. O Senhor deve estar presente nos nossos familiares, amigos, vizinhos, companheiros de trabalho… “Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem pôr o Senhor de cara contra a parede, ou colocá-lo num canto da alma…, temos de afirmar, com as nossas palavras e com as nossas obras, que aspiramos a fazer de Cristo um autêntico Rei de todos os corações…, também dos deles”6.

II. OPORTET AUTEM illum regnare…, é necessário que Ele reine…7

São Paulo ensina que a soberania de Cristo sobre toda a criação cumpre-se agora no tempo, mas alcançará a sua plenitude definitiva depois do Juízo universal. O Apóstolo apresenta este acontecimento, para nós misterioso, como um ato de solene homenagem ao Pai: Cristo oferecer-lhe-á toda a criação como um troféu e apresentar-lhe-á finalmente o Reino cuja realização lhe havia sido confiada até aquele momento8. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos, quando tiver estabelecido os novos céus e a nova terra9, representará o triunfo definitivo sobre o demônio, o pecado, a dor e a morte10.

Entretanto, a atitude do cristão não pode ser de mera passividade em relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse reinado: Oportet illum regnare…! É necessário que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum amor se anteponha ao amor a Deus. É necessário que reine no nosso corpo, templo do Espírito Santo11; no nosso trabalho profissional, caminho de santidade… “Como és grande, Senhor nosso Deus! Tu és quem dá à nossa vida sentido sobrenatural e eficácia divina. Tu és a causa de que, por amor do teu Filho, possamos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e com o corpo: Convém que Ele reine!, enquanto ressoa a canção da nossa fraqueza, pois sabes que somos criaturas”12.
A festa de hoje é como uma antecipação da segunda vinda de Cristo em poder e majestade, a vinda gloriosa que se apossará dos corações e secará toda a lágrima de infelicidade. Mas é, ao mesmo tempo, uma chamada e um incentivo para que todas as coisas à nossa volta se deixem impregnar pelo espírito amável de Cristo, pois “a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, deve antes estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra, na qual cresce o Corpo da nova família humana que já nos pode oferecer um certo esboço do novo mundo. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do crescimento do Reino de Cristo, no entanto o progresso terreno é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar melhor a sociedade humana.

“Depois de termos propagado na terra – no Espírito do Senhor e por sua ordem – os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, voltaremos a encontrar todos esses bons frutos da natureza e do nosso trabalho – desta vez limpos já de toda a impureza, iluminados e transfigurados – quando Cristo entregar ao Pai o Reino eterno e universal […]. O Reino já está misteriosamente presente aqui na terra. E quando o Senhor vier, alcançará a sua perfeição”13. Nós colaboramos na propagação do reinado de Jesus quando procuramos tornar mais humano e mais cristão o pequeno mundo que freqüentamos diariamente.
III. JESUS RESPONDEU a Pilatos: O meu Reino não é deste mundo… E quando o Procurador tornou a interpelá-lo, afirmou-lhe: Tu o dizes, eu sou rei14. Não sendo deste mundo, o Reino de Cristo começa já nesta terra. O seu reinado expande-se entre os homens quando eles se sentem filhos de Deus, quando se alimentam dEle e vivem para Ele.

Cristo é um Rei que recebeu todo o poder no céu e na terra, e governa sendo manso e humilde de coração15, servindo a todos, porque não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção de muitos. O seu trono foi o presépio de Belém e depois a Cruz do Calvário. Sendo o Príncipe dos reis da terra16, não exige outros tributos além da fé e do amor.

Um ladrão foi o primeiro a reconhecer a sua realeza: Senhor – dizia-lhe ele com uma fé simples e humilde –, lembra-te de mim quando entrares no teu reino17. O título que para muitos foi motivo de escândalo e de injúrias, será a salvação deste homem em quem a fé lançou raízes, quando mais oculta parecia a divindade do Salvador. O Senhor “concede sempre mais do que aquilo que lhe pedem: o ladrão só lhe pedia que se lembrasse dele; mas o Senhor disse-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso. A vida consiste em habitar com Jesus Cristo, e onde está Jesus Cristo ali está o seu Reino”18.

Na festa de hoje, ouvimos o Senhor dizer-nos na intimidade do nosso coração: Eu tenho sobre ti desígnios de paz e não de aflição19. E fazemos o propósito de corrigir no nosso coração o que não estiver de acordo com o querer de Cristo.
Ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nos reforce a vontade de colaborar na tarefa de estender o seu reinado ao nosso redor e em tantos lugares em que ainda não o conhecem. “Foi para isso que nós, os cristãos, fomos chamados, essa é a nossa tarefa apostólica e a preocupação que deve consumir a nossa alma: conseguir que o reino de Cristo se torne realidade, que não haja mais ódios nem crueldades, que estendamos pela terra o bálsamo forte e pacífico do amor”20. Que o Senhor nos faça sentir-nos verdadeiramente comprometidos a realizar um apostolado constante e eficaz.

Para tornarmos realidade os nossos desejos, recorremos uma vez mais a Nossa Senhora. “Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a Rainha do nosso coração, cuida de nós como só Ela o sabe fazer. Mãe compassiva, trono da graça: nós te pedimos que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam, verso a verso, o poema singelo da caridade, quasi fluvium pacis (Is 66, 12), como um rio de paz. Pois tu és um mar de inesgotável misericórdia”21.

(1) Sl 28, 10-11; Antífona da comunhão da Missa do último domingo do Tempo Comum; (2) João Paulo II, Homilia, 20.11.83; (3) cfr. Pio XI, Carta Encíclica Quas primas, 11.12.25; (4) Ez 34, 11-12; Primeira leitura da Missa do último domingo do Tempo Comum, ciclo A; (5) João Paulo II, Alocução, 26.11.89; (6) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 608; (7) 1 Cor 15, 25; Segunda leitura da Missa do último domingo do Tempo Comum, ciclo A; (8) cfr. 1 Cor 15, 23-28; (9) Apoc 21, 1-2; (10) cfr. Sagrada Bíblia, Epístola de São Paulo aos Coríntios, nota a 1 Cor 15, 23-28; (11) cfr. Pio XI, Carta Encíclica Quas primas, cit.; (12) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 181; (13) Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 39; (14) Jo 18, 36-37; (15) cfr. Mt 11, 29; (16) Apoc 1, 5; Segunda leitura da Missa do último domingo do Tempo Comum, ciclo B; (17) Lc 23, 42; (18) Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de São Lucas; (19) Jer 29, 11; (20) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 183; (21) ibid., n. 187.

 

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21 DE NOVEMBRO

42. APRESENTAÇÃO DE NOSSA SENHORA

Memória

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– O sentido da festa. A entrega de Maria.

 

– A nossa entrega. Correspondência à graça.

 

– Imitar Nossa Senhora. Renovar a entrega.

 

Neste dia, recorda-se a consagração da igreja de Santa Maria Menina, construída perto do Templo de Jerusalém para comemorar a dedicação que a Virgem – conforme uma piedosa tradição – fez de si própria ao Senhor, desde a sua primeira juventude, movida pelo Espírito Santo, de cujas graças estava repleta desde a sua Conceição Imaculada. A festa foi introduzida no Ocidente no século XIV.

I. NADA SABEMOS DA VIDA de Nossa Senhora até o momento em que o Arcanjo lhe apareceu para anunciar-lhe que tinha sido escolhida para ser a Mãe de Deus. Cheia de graça desde o primeiro momento da sua concepção, Maria teve uma existência completamente singular – Deus guardou-a em cada instante com um amor único e irrepetível – e ao mesmo tempo foi uma criança normal, que encheu de alegria todos os que conviveram com ela.
São Lucas, tão diligente em examinar todas as fontes que pudessem trazer-lhe notícias e dados, omite qualquer referência à meninice da Virgem. Muito provavelmente, Nossa Senhora nada lhe disse dos seus primeiros anos porque pouco tinha a contar: tudo se passou na intimidade da sua alma, num diálogo contínuo com seu Pai-Deus, que esperava, sem pressas, o momento inefável e único da Encarnação. “Mãe! Por que nos ocultaste os anos da tua primeira juventude? Virão depois os evangelhos apócrifos e inventarão mentiras; mentiras piedosas, sim, mas, ao fim e ao cabo, imagens falsas do teu verdadeiro ser. E dir-nos-ão que vivias no Templo, que os anjos te traziam de comer e falavam contigo… Sempre milagres, milagres… E assim te afastam de nós”1, quando estás tão perto da nossa vida cotidiana!

A festa que celebramos hoje não tem a sua origem no Evangelho, mas numa antiga tradição. A Igreja não quis aceitar as narrações apócrifas segundo as quais Nossa Senhora teria passado a viver no Templo desde os três anos de idade, consagrada a Deus por um voto de virgindade. Mas aceita o núcleo essencial da festa2, a dedicação que a Virgem fez de si própria, já desde a infância, movida pelo Espírito Santo, cuja graça a inundava desde o primeiro instante da sua concepção. Do que não há dúvida é de que foi absolutamente real a plena entrega de Maria a Deus, conforme foi crescendo.

Hoje é, pois, a festa da total entrega da Virgem a Deus e da sua plena dedicação aos planos divinos. Por essa plena entrega, que inclui a dedicação virginal, Nossa Senhora pôde dizer ao Anjo: Não conheço varão3. Essas palavras descobrem delicadamente uma história de entrega que teve lugar na sua alma. Maria é já o primeiro fruto do Novo Testamento, em que a excelência da virgindade sobre o casamento alcançará todo o seu sentido, sem com isso diminuir o valor santificante da união conjugal, que o próprio Cristo elevará à dignidade de sacramento4.

Hoje pedimos à nossa Mãe que nos ajude a tornar realidade essa entrega do nosso coração, segundo a peculiar vocação que cada um tenha recebido. “Tens de entrar em colóquio com Santa Maria e confiar-lhe: – Ó Senhora, para viver o ideal que Deus meteu no meu coração, preciso voar… muito alto, muito alto!
“Não basta que te desprendas, com a ajuda divina, das coisas deste mundo, sabendo que são terra. Mais ainda: mesmo que coloques o universo inteiro num montão debaixo dos teus pés, para estares mais perto do Céu…, isso não basta!
“Precisas voar, sem te apoiares em nada daqui de baixo, pendente da voz e do sopro do Espírito. – Mas, dizes-me, as minhas asas estão manchadas!: de barro de anos, sujo, pegajoso…
“E insisti contigo: recorre à Virgem. – Senhora – repete-lhe –, mal consigo levantar vôo!, a terra atrai-me como um imã maldito! – Senhora, Tu podes fazer que a minha alma se lance em vôo definitivo e glorioso, que tem o seu termo no Coração de Deus.
“Confia, que Ela te escuta”5.
II. A VIRGEM MARIA foi a criatura que teve maior intimidade com Deus, a que dEle recebeu o maior amor; foi a cheia de graça6. Nunca negou nada a Deus, e a sua correspondência à graça e às moções do Espírito Santo foi sempre plena. Devemos aprender dEla a dar-nos por inteiro ao Senhor, com uma plenitude de correspondência generosa, no estado e na vocação que Deus nos deu, no meio dos afazeres cotidianos no mundo. Ela é o exemplo que temos de imitar. “Tal foi Maria – ensina a este respeito Santo Ambrósio –, que a sua vida, por si mesma, é para todos um ensinamento”. E conclui: “Tende, pois, diante dos olhos, pintadas como uma imagem, a virgindade e a vida da Bem-aventurada Virgem, na qual se reflete como num espelho o brilho da pureza e a própria força da virtude”7.
A nossa Mãe Santa Maria correspondia e crescia em santidade e graça. Tendo sido cumulada dos dons divinos desde o primeiro instante, foi alcançando uma nova plenitude na medida em que era fidelíssima às moções que o Espírito Santo lhe concedia. Só em Nosso Senhor não existiu aumento ou progresso da graça e da caridade, porque Ele tinha a plenitude absoluta no momento da Encarnação8; como ensina o II Concílio de Constantinopla, seria falsa e herética a afirmação de que Jesus Cristo se tornou melhor pelo progresso das boas obras9. Maria, porém, foi crescendo em santidade no decorrer da sua vida terrena. Mais ainda: existiu na sua vida um progresso espiritual sempre crescente, que foi aumentando na medida em que se aproximavam os grandes acontecimentos da sua vida aqui na terra: a Encarnação do seu Filho, a Corredenção no Calvário…, a Assunção aos Céus.

Acontece o mesmo na alma dos santos: quanto mais perto vão estando de Deus, mais fiéis são às graças recebidas e mais rapidamente caminham para Ele. “É o movimento uniformemente acelerado, símbolo do progresso espiritual da caridade numa alma que em nada se atrasa, e que caminha para Deus tanto mais depressa quanto mais se aproxima dEle, quanto mais é atraída por Ele”10. Assim deve ser a nossa vida, pois o Senhor nos chama à santidade no lugar onde nos encontramos. E serão precisamente as alegrias e as penas da vida as que nos servirão para irmos cada vez mais depressa para Deus, correspondendo às graças que recebemos. As dificuldades habituais do trabalho, o convívio com as pessoas, as notícias que recebemos…, devem ser motivo para amarmos cada dia mais o Senhor.

A Virgem convida-nos hoje a não deixarmos escondido no fundo do coração nada que não seja plenamente de Deus: “Senhor, tira a soberba da minha vida; destrói o meu amor próprio, este desejo de me afirmar e me impor aos outros; faz com que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo”11, que cada dia esteja um pouco mais perto de Ti. Dá-me essa pressa dos santos em crescer no teu Amor.
III. NOSSA SENHORA dedicou-se plenamente a Deus movida pelo Espírito Santo, e talvez o tenha feito nessa idade em que as crianças alcançam o uso da razão, que nEla, cheia de graça, deve ter sido de uma particular luminosidade; ou talvez o tivesse feito desde sempre…, sem que houvesse nenhum ato formal. “A Virgem Maria menina sabia de sobra – afirma Santo Afonso Maria de Ligório – que Deus não aceita corações divididos, antes os quer completamente consagrados ao seu amor, em conformidade com o preceito divino: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com todas as tuas forças (cfr. Deut 6, 5), e por isso, desde o momento em que começou a viver, amou a Deus com todas as suas forças e entregou-se completamente a Ele”12. Maria sempre pertenceu a Deus; e cada vez mais conscientemente, com um amor que alcançava em todas as ocasiões e circunstâncias uma nova plenitude.
Hoje, pode ser uma boa oportunidade – todos os dias o são – para que, meditando nesta festa de Maria, na qual se põe de manifesto a sua completa dedicação ao Senhor, renovemos a nossa entrega a Deus no meio dos afazeres cotidianos, no lugar em que o Senhor nos colocou. Mas devemos ter em conta que todo o avanço na nossa união com Deus deve passar necessariamente por um trato mais freqüente com o Espírito Santo, Hóspede da nossa alma, a quem Nossa Senhora foi tão dócil ao longo da sua vida. Para pedirmos essa graça, pode ser-nos útil a oração que o Bem-aventurado Josemaría Escrivá compôs para a sua devoção pessoal:

“Vem, ó Santo Espírito!: ilumina o meu entendimento para conhecer os teus mandatos; fortalece o meu coração contra as insídias do inimigo; inflama a minha vontade… Ouvi a tua voz e não quero endurecer-me e resistir, dizendo: depois…, amanhã. Nunc coepi! Agora!, não aconteça que o amanhã me falte.

“Ó Espírito de verdade e de sabedoria, Espírito de entendimento e de conselho, Espírito de alegria e de paz!: quero o que queres, quero porque o queres, quero como o queres, quero quando o quiseres…”13
Peçamos também a Nossa Senhora que haja muitas pessoas que, dóceis ao Espírito Santo, se entreguem inteiramente a Deus, como Ela, desde a sua primeira juventude.

(1) Salvador M. Iglesias, O Evangelho de Maria, Quadrante, São Paulo, 1991, pág. 16; (2) cfr. Paulo VI, Exort. Apost. Marialis cultus, 2-II-1974, 8; (3) cfr. Lc 1, 34; (4) cfr. Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 48; (5) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 994; (6) Oração coleta da Missa do dia 21 de novembro; (7) Santo Ambrósio, Sobre as virgens, II, 2; (8) cfr. R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, pág. 100; (9) cfr. Conc. Contantinopolitano II, Dz 224; (10) ib., 103; (11) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 31; (12) Santo Afonso Maria de Ligório, As glórias de Maria, II, 3; (13) São Josemaría Escrivá, Postulação para a Causa de Beatificação e Canonização, Registro Histórico do Fundador, 20172, pág. 145.

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