Leituras 26/12/10


ANO LITÚRGICO “A” – TEMPO DO NATAL

Domingo, 26 de dezembro de 2010

SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

Branco – Glória – Creio – Prefácio do Natal – Ofício da Festa

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Antífona: Vieram apressados os pastores e encontraram Maria com José, e o menino deitado no presépio (Lc 2,16).

Oração do Dia: Ó Deus de bondade, que nos destes a Sagrada Família como exemplo, concedei-nos imitar em nossos lares as suas virtudes para que, unidos pelos laços do amor, possamos chegar um dia às alegrias da vossa casa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Primeira Leitura: Eclesiástico 3, 3-7.14-17

Leitura do livro do Eclesiástico:

3 Pois Deus quis honrar os pais pelos filhos, e cuidadosamente fortaleceu a autoridade da mãe sobre eles.
4 Aquele que ama a Deus o roga pelos seus pecados, acautela-se para não cometê-los no porvir. Ele é ouvido em sua prece cotidiana.
5 Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro.
6 Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração.
7 Quem honra seu pai gozará de vida longa; quem lhe obedece dará consolo à sua mãe.
14 Meu filho, ajuda a velhice de teu pai, não o desgostes durante a sua vida.
15 Se seu espírito desfalecer, sê indulgente, não o desprezes porque te sentes forte, pois tua caridade para com teu pai não será esquecida,
16 e, por teres suportado os defeitos de tua mãe, ser-te-á dada uma recompensa;
17 tua casa tornar-se-á próspera na justiça. Lembrar-se-ão de ti no dia da aflição, e teus pecados dissolver-se-ão como o gelo ao sol forte.

Palavra do Senhor.
Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 128/127

Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos!

Feliz és tu se temes o Senhor
e trilhas seus caminhos!
Do trabalho de tuas mãos hás de viver,
serás feliz, tudo irá bem!

A tua esposa é uma videira bem fecunda
no coração da tua casa;
os teus filhos são rebentos de oliveira
ao redor de tua mesa.

Será assim abençoado todo homem
que teme o Senhor.
O Senhor te abençoe de Sião
cada dia de tua vida.

Segunda Leitura: Colossenses 3, 12-21

Leitura da carta de são Paulo aos Colossenses:

12 Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência.
13 Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós.
14 Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição.
15 Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos.
16 A palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a sabedoria vos possais instruir e exortar mutuamente. Sob a inspiração da graça cantai a Deus de todo o coração salmos, hinos e cânticos espirituais.
17 Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.
18 Mulheres, sede submissas a vossos maridos, porque assim convém, no Senhor.
19 Maridos, amai as vossas mulheres e não as trateis com aspereza.
20 Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor.
21 Pais, deixai de irritar vossos filhos, para que não se tornem desanimados.

Palavra do Senhor.
Graças a Deus!

Evangelho: Mateus 2, 13-15.19-23

Aleluia, aleluia, aleluia.
Que a paz de Cristo reine em vossos corações e ricamente habite em vós sua palavra! (Cl 3,15s).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus:

13 Depois que os magos partiram, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”.
14 José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.
15 Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: “Eu chamei do Egito meu filho”.
19 Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse:
20 “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino”.
21 José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel.
22 Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia
23 e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: “Será chamado Nazareno”.

Palavra da Salvação.
Glória a Vós, Senhor!

Levantou-se de noite…(Mt 2, 13-15.19-23)

Na Festa da Sagrada Família, parece oportuno recordar algo que jamais deveria ter sido esquecido: os pais existem para os filhos! A escolha deste Evangelho – a fuga para o Egito – realça mais uma vez a cooperação humana com os projetos divinos. Sem a cooperação de Maria e de José de Nazaré, Jesus – o Filho de Deus encarnado – não teria nascido nem sobrevivido.

As crianças são frágeis e dependentes. Precisam do sangue da mãe na vida intra-uterina. Dependem do leite materno, de carinho e atenção. O menino aprende com o pai uma visão do mundo, enquanto dele absorve o idioma, o jeito de andar, a música da voz.

Que tal recordar que o Menino Jesus se dirigia a José chamando-o de “abbá”? Uma expressão aramaica – um diminutivo afetivo exclusivo dos pequeninos! – que usaria mais tarde ao se referir ao Pai do céu (cf. Lc 22, 42). E assim se manifesta o fato de que os pais humanos são a primeira imagem que orienta para o Pai celeste. Quem teve um pai presente, protetor, não terá dificuldade em se relacionar com a imagem paterna de Deus, nem verá nele o policial ou o feitor que tantos temem…

A reação de José, ao acordar do sonho em que o anjo de Deus o visitara, foi pôr-se de pé e fazer estrada rumo ao Egito. Como observa von Balthasar, “as instruções que José recebe do anjo do Senhor têm como único objetivo o bem do menino”. Isto é, não importa se a mãe e o pai vão sofrer as agruras da caminhada e comer o pão dos migrantes em terra estranha: trata-se de proteger e salvar a criança!

Que lição para nossos dias, quando o conforto, as preferências e as comodidades dos pais acabam por sacrificar os filhos, o que encontra seu ponto crítico nas frequentes separações entre esposos que “se cansaram de sofrer”!

Prontamente, José “levantou-se, tomou, de noite, o Menino e sua Mãe e retirou-se para o Egito” (Mt 2, 14). Se na Anunciação a Maria o anjo tem como resposta uma palavra – Faça-se! -, na Anunciação a José a resposta é um gesto concreto: pôr-se a caminho.

O Evangelho não diz quanto custou deixar a segurança do próprio país, seu idioma e cultura, seu ambiente e sua culinária. O que está em questão é a fidelidade a uma vocação. O cumprimento de uma missão.

É assim que estamos respondendo ao chamado de Deus?

Orai sem cessar: “Tenho os olhos sempre no Senhor!” (Sl 25, 15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Santo Afonso Maria de Liguori (1696-1787), bispo e Doutor da Igreja
Meditações sobre a Oitava da Epifania, n° 3 (a partir da trad. Noël, Éds. Saint-Paul 1993, p. 309)

«Os que atentavam contra a vida do Menino»

Um anjo apareceu em sonhos a São José, e avisou-o de que Herodes andava à procura do Menino Jesus para Lhe tirar a vida: «Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egito.» Assim pois, ainda mal nasceu, já Jesus é perseguido de morte. […] José obedece sem demora à voz do anjo, acordando sua santa esposa. Pega em algumas ferramentas que pudesse levar consigo, a fim de exercer a sua profissão no Egito e de ter com que sustentar a família. Maria, por seu turno, reúne as roupas necessárias a seu divino Filho; e depois, aproximando-se do berço onde Ele repousava, ajoelha-se, beija os pés de seu querido Filho e, por entre lágrimas de ternura, diz-Lhe: «Meu Filho e meu Deus, que vieste ao mundo para salvar os homens; ainda mal nasceste e já os homens vêm à Tua procura para Te dar a morte!» Pega Nele e, continuando a chorar, os dois santos esposos fecham a porta e põem-se a caminho durante a noite. […]

Meu bem-amado Jesus, Tu és o Rei do Céu e vejo-Te errar como fugitivo sob a aparência de uma criança. Que procuras? Diz-me. A Tua pobreza e o Teu abaixamento emocionam-me de compaixão; mas aquilo que me aflige mais é a negra ingratidão com que Te vejo tratado por aqueles que vieste salvar. Tu choras, e também eu choro, por ter sido um daqueles que Te desprezaram e Te perseguiram; a partir de agora, porém, preferirei a Tua graça a todos os reinos do mundo.

Perdoa-me todos os ultrajes que Te fiz; permite-me que, na viagem desta vida para a eternidade, Te leve no meu coração, a exemplo de Maria, que Te levou nos seus braços durante a fuga para o Egito. Meu Redentor bem-amado, foram muitas as vezes em que Te expulsei da minha alma, mas tenho confiança, agora que voltaste a tomar conta dela. E suplico-Te que a prendas a ti pelas doces correntes do Teu amor.

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SAGRADA FAMÍLIA, JESUS, MARIA E JOSÉ. PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DO NATAL

31. A FAMÍLIA DE NAZARÉ

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Jesus quis começar a Redenção do mundo no seio de uma família.

– A missão dos pais. Exemplo de Maria e José.

– A Sagrada Família, exemplo para todas as famílias.

I. CUMPRIDAS TODAS AS COISAS segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, para a sua cidade de Nazaré. O Menino crescia e fortalecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele1.

O Messias quis começar a sua tarefa redentora no seio de uma família simples, normal. O lar onde nasceu foi a primeira realidade humana que Jesus santificou com a sua presença.

Nesse lar, José era o chefe de família; como pai legal, era a ele que cabia sustentar Jesus e Maria com o seu trabalho. Foi ele quem recebeu a mensagem do nome que devia dar ao Menino – pôr-lhe-ás o nome de Jesus – e as indicações necessárias para proteger o Filho: Levanta-te, toma o Menino e foge para o Egito. Levanta-te, toma o Menino e volta para a pátria. Não vás a Belém, mas a Nazaré. Dele aprendeu Jesus o seu ofício, o meio de ganhar a vida. Jesus devia manifestar-lhe muitas vezes a sua admiração e o seu carinho.

De Maria, Jesus aprendeu maneiras de falar, ditos populares cheios de sabedoria, que mais tarde utilizaria na sua pregação. Viu com certeza como Ela guardava um pouco de massa de um dia para o outro, como lhe jogava água e a misturava com a nova massa, deixando-a fermentar bem abrigada debaixo de um pano limpo. Quando a Mãe remendava a roupa, o Menino devia observá-la; se uma peça tinha um rasgão, Maria procuraria um pedaço de pano que se ajustasse ao remendo. Jesus, com a curiosidade própria das crianças, perguntar-lhe-ia por que não se servia de um tecido novo; e a Virgem Maria explicar-lhe-ia que os retalhos novos, quando são molhados, estiram o pano anterior e o rasgam; por isso era preciso fazer os remendos com pano velho… E quanto às melhores roupas, que se reservavam para os dias de festa e costumavam ser guardadas numa arca, Maria tinha sem dúvida muito cuidado em colocar junto delas certas plantas olorosas, para evitar que a traça as destruísse.

Tudo isto aparecerá anos mais tarde na pregação de Jesus e leva-nos a pensar num ensinamento fundamental para a nossa vida diária: “A quase totalidade dos dias que Nossa Senhora passou na terra decorreram de forma muito parecida à de milhões de outras mulheres, ocupadas em cuidar da família, em educar os filhos, em levar a cabo as tarefas do lar. Maria santifica as coisas mais pequenas, aquelas que muitos consideram erroneamente como intranscendentes e sem valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas queridas, as conversas e visitas por motivos de parentesco ou de amizade. Bendita normalidade, que pode estar repassada de tanto amor de Deus!”2

Entre José e Maria havia carinho santo, espírito de serviço e compreensão. Assim é a família de Jesus: sagrada, santa, exemplar, modelo de virtudes humanas, disposta a cumprir com exatidão a vontade de Deus. O lar cristão deve ser imitação do de Nazaré: um lugar onde Deus caiba plenamente e possa estar no centro do amor entre todos.

É assim o nosso lar? Dedicamos-lhe o tempo e a atenção que merece? Jesus é o centro? Sacrificamo-nos pelos outros? São perguntas que podem ser oportunas na nossa oração de hoje, enquanto contemplamos Jesus, Maria e José na festa que a Igreja lhes dedica.

II. NA FAMÍLIA, “os pais devem ser para seus filhos os primeiros educadores da fé, mediante a Palavra e o exemplo”3. Isto cumpriu-se de maneira singularíssima no caso da Sagrada Família. Jesus aprendeu de seus pais o significado das coisas que o rodeavam.

A Sagrada Família devia recitar com devoção as orações tradicionais que se rezavam em todos os lares israelitas, mas naquela casa tudo o que se referia particularmente a Deus tinha um sentido e um conteúdo novos. Com que prontidão, fervor e recolhimento Jesus devia repetir os versículos da Sagrada Escritura que as crianças hebraicas tinham que aprender!4 Devia recitar muitas vezes essas orações aprendidas dos lábios de seus pais.

Ao meditarem nestas cenas, os pais devem considerar com freqüência as palavras do Papa Paulo VI recordadas por João Paulo II: “Vocês ensinam às suas crianças as orações do cristão? Preparam os seus filhos, de comum acordo com os sacerdotes, para os sacramentos da primeira idade: Confissão, Comunhão, Confirmação? Acostumam-nos, se estão doentes, a pensar em Cristo que sofre, a invocar a ajuda de Nossa Senhora e dos santos? Recitam o terço em família? Sabem rezar com os seus filhos, com toda a comunidade doméstica, ao menos de vez em quando? O exemplo que derem com a sua retidão de pensamento e de ação, apoiado em alguma oração em comum, valerá por uma lição de vida, valerá por um ato de culto de mérito singular; vocês levam desse modo a paz ao interior dos muros domésticos: Pax huic domui. Lembrem-se de que assim edificam a Igreja”5.

Os lares cristãos, se imitarem o da Sagrada Família de Nazaré, serão “lares luminosos e alegres”6, porque cada membro da família se esforçará em primeiro lugar por aprimorar o seu relacionamento pessoal com o Senhor e, com espírito de sacrifício, procurará ao mesmo tempo chegar a uma convivência cada dia mais amável com todos os da casa.

A família é escola de virtudes e o lugar habitual onde devemos encontrar a Deus. “A fé e a esperança têm que manifestar-se na serenidade com que se encaram os problemas, pequenos ou grandes, que surgem em todos os lares, no ânimo alegre com que se persevera no cumprimento do dever. Assim, a caridade inundará tudo e levará a compartilhar as alegrias e os possíveis dissabores, a saber sorrir, esquecendo as preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são queridos e compreendidos de verdade; a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária. Santificar o lar, dia a dia; criar, com o carinho, um autêntico ambiente de família: é disso que se trata”7.

O exercício das virtudes teologais no seio da família alicerçará a unidade que a Igreja nos ensina a pedir: Vós, que ao nascerdes numa família fortalecestes os vínculos familiares, fazei que as famílias vejam crescer a unidade8.

III. UMA FAMÍLIA UNIDA a Cristo é um membro do seu Corpo místico, e foi chamada “Igreja doméstica”9. Esta comunidade de fé e de amor tem de manifestar-se em cada circunstância como testemunho vivo de Cristo, à semelhança da própria Igreja. “A família cristã proclama em voz muito alta tanto as presentes virtudes do Reino como a esperança da vida bem-aventurada”10.

Cada lar cristão tem na Sagrada Família o seu exemplo mais cabal; nela, a família cristã pode descobrir o que deve fazer e como deve comportar-se, para a santificação e a plenitude humana de cada um dos seus membros. “Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e a penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa muito simples, muito humilde e muito bela manifestação do Filho de Deus entre os homens. Aqui se aprende até, talvez insensivelmente, a imitar essa vida”11.

A família é a forma básica e mais simples da sociedade. É a principal “escola de todas as virtudes sociais”. É a sementeira da vida social, pois é na família que se pratica a obediência, a preocupação pelos outros, o sentido de responsabilidade, a compreensão e a ajuda mútua, a coordenação amorosa entre os diversos modos de ser. Isto se realiza especialmente nas famílias numerosas, sempre louvadas pela Igreja12. Com efeito, está comprovado que a saúde de uma sociedade se mede pela saúde das famílias. Esta é a razão pela qual os ataques diretos à família (como é o caso da introdução do divórcio na legislação) são ataques diretos à própria sociedade, cujos resultados não tardam a manifestar-se.

“Desejamos que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também Mãe da «Igreja doméstica», e que, graças à sua ajuda materna, cada família cristã possa chegar a ser verdadeiramente uma pequena Igreja de Cristo. Seja Ela, Escrava do Senhor, exemplo de uma aceitação humilde e generosa da vontade de Deus; seja Ela, Mãe Dolorosa aos pés da Cruz, quem alivie os sofrimentos e enxugue as lágrimas daqueles que sofrem pelas dificuldades das suas famílias. E que Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, esteja presente, como em Caná, em cada lar cristão, para dar luz, alegria, serenidade e fortaleza”13.

Pedimos hoje de modo muito especial à Sagrada Família por cada um dos membros da nossa família e pelo mais necessitado dentre eles.

(1) Lc 2, 39-40; (2) São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 148; (3) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 11; (4) cfr. Sl 55, 18; Dan 6, 11; Sl 119; (5) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 60; (6) cfr. São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 22; (7) ibid., n. 23; (8) Preces. Segundas vésperas do dia 1º de janeiro; (9) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 11; (10) ibid., 35; (11) Paulo VI, Alocução em Nazaré, 5-I-1964; (12) cfr. Concílio Vaticano II, ConstituiçãoGaudium et spes, 52; (13) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 86.

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SANTO ESTÊVÃO, PROTOMÁRTIR. 26 DE DEZEMBRO

32. SANTO ESTÊVÃO, PROTOMÁRTIR

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Calúnias e perseguições de diversas naturezas porque se segue o Senhor.

– Também hoje há perseguição. Modo cristão de reagir.

– O prêmio por se ter padecido algum tipo de perseguição por Jesus Cristo. Fomentar também a esperança do céu.

I. AS PORTAS DO CÉU abriram-se para Santo Estêvão, que foi o primeiro dentre os mártires e por isso, coroado, triunfa no céu1.

Mal celebramos o nascimento do Senhor, e já a liturgia nos propõe a festa do primeiro que deu a vida por esse Menino que acaba de nascer. “Ontem Cristo foi envolvido em panos por nós; hoje, cobre Estêvão com a veste da imortalidade. Ontem uma estreita manjedoura sustentou Cristo-Menino; hoje, a imensidade do céu recebe Estêvão triunfante”2.

A Igreja quer recordar que a Cruz está sempre muito perto de Jesus e dos seus. Na luta pela justificação plena – a santidade –, o cristão depara com situações difíceis e ataques dos inimigos de Deus no mundo. O Senhor nos previne: Se o mundo vos odeia, sabei que antes do que a vós me odiou a mim… Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também vos perseguirão a vós3. E esta profecia cumpriu-se desde o começo da Igreja.

“Todos os tempos são de martírio, escreve Santo Agostinho. Não se diga que os cristãos não sofrem perseguição; a sentença do Apóstolo não pode falhar […]: Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerão perseguição (2 Tim 3, 12). Todos, diz; não excluiu ninguém, não excetuou ninguém. Se queres verificar se estas palavras são certas, começa a viver piedosamente e verás quanta razão teve o Apóstolo em dizê-las”4.

Já no começo da Igreja os primeiros cristãos de Jerusalém foram perseguidos pelas autoridades judaicas. Os Apóstolos foram açoitados por pregarem Cristo Jesus, e sofreram-no com alegria: Eles se retiraram da presença do Sinédrio, felizes por terem sido achados dignos de padecer ultrajes pelo nome de Jesus5. “Não se diz que não sofreram, mas que o sofrimento lhes causou alegria. Podemos vê-lo pela liberdade com que atuaram logo a seguir: imediatamente depois de terem sido flagelados, lançaram-se à pregação com admirável ardor”6.

Pouco tempo depois, o sangue de Estêvão7 seria o primeiro a ser derramado por Cristo, e já não cessaria de correr até os nossos dias. Com efeito, quando Paulo chegou a Roma, os cristãos já eram conhecidos pelo sinal inconfundível da Cruz e da contradição: Desta seita – dizem a Paulo os judeus romanos –, a única coisa que sabemos é que por toda a parte lhe fazem oposição8.

Quando o Senhor nos chama ou nos pede alguma coisa, conhece bem as nossas limitações e as dificuldades que encontraremos, mas não deixa de estar ao nosso lado, ajudando-nos com a sua graça: No mundo tereis tribulação, mas confiai: Eu venci o mundo9, diz-nos. Pedir-lhe-emos então a graça de imitar Santo Estêvão na sua fortaleza, na sua alegria e na sua ânsia de dar a conhecer a verdade cristã num mundo com perfis pagãos.

II. NEM SEMPRE a perseguição teve as mesmas características. Durante os primeiros séculos, pretendeu-se destruir a fé dos cristãos por meio da violência física. Em outros momentos da história, sem que essa violência desaparecesse, os cristãos viram-se – vêem-se – oprimidos nos seus direitos mais fundamentais, ou a braços com campanhas dirigidas a minar a fé dos mais simples e a desorientá-los. Mesmo em terras de grande tradição cristã, levanta-se todo o tipo de obstáculos para que se possam educar cristãmente os filhos, ou privam-se os cristãos, pelo mero fato de o serem, de justas oportunidades profissionais.

Não é infreqüente que, em sociedades que se chamam livres, o cristão tenha que viver num ambiente claramente adverso. Pode-se dar então uma perseguição disfarçada, com o recurso à ironia, que tenta ridicularizar os valores cristãos, ou à pressão ambiental, que pretende amedrontar os mais fracos: é uma dura perseguição não sangrenta, que não raras vezes se vale da calúnia e da maledicência. “Em outros tempos – diz Santo Agostinho –, incitavam-se os cristãos a renegar Cristo; agora, ensina-se os mesmos a negar a Cristo. Naquela época, incitava-se; agora ensina-se; antes, usava-se de violência, agora, de insídias; antes, ouvia-se o inimigo rugir; agora, apresenta-se com mansidão insinuante e envolvente, e dificilmente se deixa descobrir. Todos sabemos de que modo se violentavam os cristãos para que negassem a Cristo: procuravam atraí-los para que renegassem; mas eles, confessando Cristo, eram coroados. Agora ensina-se a negar a Cristo e, enganando-os, não querem que pareça que os afastam de Cristo”10. É como se o Santo estivesse retratando os dias de hoje.

O Senhor também quis prevenir os seus para que não se desnorteassem com a contradição que procede, não dos pagãos, mas dos próprios irmãos na fé, que com a sua atuação injusta, motivada geralmente por invejas, falso zelo e faltas de retidão de intenção, julgam que prestam um serviço a Deus11. Todas as oposições, mas especialmente estas, devem ser superadas junto do Senhor no Sacrário.

São circunstâncias que expressam um especial convite do Senhor para que estejamos unidos a Ele mediante a oração. São momentos em que devemos exercitar a fortaleza e a paciência, sem nunca querermos devolver mal por mal. Com a ajuda divina, a alma sairá dessas provas mais humilde e purificada, experimentará de um modo especial a alegria do Senhor e poderá dizer com São Paulo: Estou cheio de consolação, transbordo de alegria em todas as nossas tribulações12.

Ensinai-nos, ó Deus, a imitar o que celebramos, amando os nossos próprios inimigos, pois festejamos Santo Estêvão, vosso primeiro mártir, que soube rezar pelos seus perseguidores
13.

III. O CRISTÃO que sofre perseguição por seguir Jesus tirará dessa experiência uma grande capacidade de compreensão e o propósito firme de não ferir, de não ofender, de não maltratar. O Senhor pede-nos, além disso, que oremos por aqueles que nos perseguem14,veritatem facientes in caritate, praticando a verdade com caridade15. Estas palavras de São Paulo levam-nos a ensinar a doutrina do Evangelho sem faltar à caridade de Jesus Cristo.

A última das Bem-aventuranças acaba com uma promessa apaixonada do Senhor: Bem-aventurados sereis quando vos insultarem, vos perseguirem e vos caluniarem por minha causa. Alegrai-vos e regozijai-vos porque grande será a vossa recompensa nos céus16. O Senhor é sempre bom pagador.

Estêvão foi o primeiro mártir do cristianismo e morreu por proclamar a verdade. Também nós fomos convocados para difundir a verdade de Cristo sem medo, sem dissimulações: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma17. Por isso, quando se trata de proclamar a doutrina salvadora de Cristo, não podemos ceder perante os obstáculos, antes havemos de comportar-nos de tal modo que se cumpram em nós estas palavras de Caminho: “Não tenhas medo à verdade, ainda que a verdade te acarrete a morte”18.

A história da Igreja mostra que, às vezes, as tribulações fazem com que uma pessoa se acovarde e esmoreça no seu relacionamento com Deus; mas, em muitas outras ocasiões, fazem amadurecer as almas santas, que carregam a cruz de cada dia e seguem o Senhor identificadas com Ele. Vemos constantemente esta dupla possibilidade: uma mesma dificuldade – uma doença, incompreensões, etc. – tem efeitos diferentes conforme as disposições da alma. Se queremos ser santos, não há dúvida de que as nossas disposições devem ser as de seguir sempre de perto o Senhor, apesar de todos os obstáculos.

Em momentos de contrariedade, é de grande ajuda fomentar a esperança do Céu: ajuda-nos a ser firmes na fé perante qualquer tipo de perseguição ou tentativa de desorientação. “E se caminharmos sempre com esta determinação de antes morrer que deixar de chegar ao fim, mesmo que o Senhor vos leve com alguma sede por este caminho da vida, Ele vos dará de beber com toda a abundância na outra e sem temor de que vos venha a faltar”19.

Em épocas de dificuldades externas, devemos ajudar os nossos irmãos na fé a ser firmes perante essas oposições. Prestar-lhes-emos essa ajuda se não lhes faltarmos com o nosso exemplo, com a nossa palavra, com a nossa alegria, com a nossa fidelidade e a nossa oração; e sobretudo se procurarmos ser especialmente delicados em viver com eles a caridade fraterna, porque o irmão ajudado pelo seu irmão é como uma cidade amuralhada20; é inexpugnável.

A Virgem, nossa Mãe, está particularmente perto de nós em todas as circunstâncias difíceis. Hoje dirigimo-nos também de modo especial ao primeiro mártir que deu a vida por Cristo, pedindo-lhe que nos ajude a ser fortes em todas as tribulações.

(1) Antífona de entrada da Missa do dia 26 de dezembro; (2) São Fulgêncio, Sermão 3; (3) Jo 15, 18-19; (4) Santo Agostinho, Sermão 6, 2; (5) At 5, 41; (6) São João Crisóstomo, Homilia sobre os Atos dos Apóstolos, 14; (7) cfr. At 7, 54-60; (8) At 28, 22; (9) Jo 16, 33; (10) Santo Agostinho, Comentários sobre os salmos, 39, 1; (11) Jo 16, 2; (12) 2 Cor 7, 4; (13) Coleta da Missa do dia 26 de dezembro; (14) cfr. Mt 5, 44; (15) Ef 4, 15; (16) Mt 5, 11; (17) Mt 10, 28; (18) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 34; (19) Santa Teresa, Caminho de perfeição, 20, 2; (20) Prov 18, 19.

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