Leituras de 20/01/11


ANO LITÚRGICO “A” – II SEMANA DO TEMPO COMUM

Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Verde – Ofício do Dia

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Antífona: Que toda a terra se prostre diante de vós, ó Deus, e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo! (Sl 65,4).


Oração do Dia:
Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.


Primeira Leitura: Hebreus 7, 25—8,6

Leitura da carta aos Hebreus:

Irmãos, 725 é por isso que a Jesus é possível levar a termo a salvação daqueles que por ele vão a Deus, porque vive sempre para interceder em seu favor.

26 Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado além dos céus,

27 que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo; pois isto o fez de uma só vez para sempre, oferecendo-se a si mesmo.

28 Enquanto a lei elevava ao sacerdócio homens sujeitos às fraquezas, o juramento, que sucedeu à lei, constitui o Filho, que é eternamente perfeito.

8 1 O ponto essencial do que acabamos de dizer é este: temos um Sumo Sacerdote, que está sentado à direita do trono da Majestade divina nos céus,

2 Ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo, erigido pelo Senhor, e não por homens.

3 Todo pontífice é constituído para oferecer dons e sacrifícios. Portanto, é necessário que ele tenha algo para oferecer.

4 Por conseguinte, se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria, porque já existem aqui sacerdotes que têm a missão, de oferecer os dons prescritos pela lei.

5 O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: “Olha, foi-lhe dito, faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte”.

6 Ao nosso Sumo Sacerdote, entretanto, compete ministério tanto mais excelente quanto ele é mediador de uma aliança mais perfeita, selada por melhores promessas.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 40/39

Eis que venho fazer, com prazer,
a vossa vontade, Senhor!

Sacrifício e oblação não quisestes,
mas abristes, Senhor, meus ouvidos;
não pedistes ofertas nem vítimas,
holocaustos por nossos pecados,
e então eu vos disse: “Eis que Senhor!”

Sobre mim está escrito no livro:
“Com prazer faço a vossa vontade,
guardo em meu coração vossa lei!”

Boas novas de vossa justiça
anunciei numa grande assembleia;
vós sabeis: ao fechei os meus lábios!

Mas se alegre e em vós rejubile
todo ser que vos busca, Senhor!
Digam sempre: “É grande o Senhor!”
Os que buscam em vós seu auxílio.

Evangelho: Marcos 3, 7-12

Aleluia, aleluia, aleluia.

Jesus Cristo salvador destruiu o mal e a morte; fez brilhar pelo evangelho a luz e a vida imperecíveis (2Tm 1,10).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos:

Naquele tempo, 37 Jesus retirou-se com os seus discípulos para o mar, e seguia-o uma grande multidão, vinda da Galileia.

8 E da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, do além-Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidônia veio a ele uma grande multidão, ao ouvir o que ele fazia.

9 Ele ordenou a seus discípulos que lhe aprontassem uma barca, para que a multidão não o comprimisse.

10 Curou a muitos, de modo que todos os que padeciam de algum mal se arrojavam a ele para o tocar.

11 Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: “Tu és o Filho de Deus!”

12 Ele os proibia severamente que o dessem a conhecer.

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Uma grande multidão… (Mc 3, 7-12)

O Evangelho de hoje mostra Jesus de Nazaré procurado, cercado e quase atropelado pelas multidões, a tal ponto que os discípulos precisam protegê-lo, “isolando-o” em uma barca. A Palestina invadida e dominada pelos romanos vivia um momento de grande mobilidade social. As terras devastadas não só haviam deslocado parte da população, mas deixaram grande massa do povo sem trabalho fixo.

Independente desse contexto histórico, Jesus sempre atrairá multidões. O mesmo ocorreria com seus missionários (Vicente de Paulo, Luís de Montfort, Emiliano Tardiff, Pio de Pietrelcina). Quando João Paulo II esteve na França pela última vez, a mídia anticlerical se perguntava, espantada, o que é que atraía tal multidão para vê-lo e ouvi-lo. Na recente Jornada Mundial da Juventude, em Colônia (2005), já com Bento XVI, a mesma perplexidade vazava dos jornais da TV.

De algum modo, o povo percebe a presença de Cristo em seus representantes e busca por sua Palavra como nos tempos de sua passagem pela terra. Mais que no íntimo de cada um, é nas multidões que fica mais nítida a fome de Deus. De fato, ele anda conosco.

É disso que falo em meu soneto “O Caminheiro”:

Se baixo o olhar dos celestiais espaços

E fito a Humanidade em seus caminhos,

Eu vejo pés feridos nos espinhos

Gravando as marcas rubras de seus passos.

Passadas trôpegas, os membros lassos,

Batidos pelos ventos mais mesquinhos,

Trigo inerme ante a roda dos moinhos,

Vejo o povo partido em mil pedaços…

Pobre gente! Imagina que vai só

No seu caminho, feito lama e pó,

Romaria de dores e pecados…

E não percebe – oh! universal loucura! –

Que, no sendeiro grave de amargura,

Jesus Cristo caminha ao nosso lado…

Orai sem cessar: “Feliz o povo que sabe te aclamar!” (Sl 89 [88], 16)

Texto e poema de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

santini@novaalianca.com.br www.novaalianca.com.br

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Santo Afonso-Maria de Liguori (1696-1787), bispo e Doutor da Igreja
5º Discurso para a Novena do Natal (trad. Éds Saint-Paul 1993, p. 76 rev.)

«Todos os que padeciam de enfermidades caíam sobre Ele para Lhe tocarem»

«Dizei a todos os que têm o coração despedaçado: Tomai coragem e não tenhais medo. […] O próprio Deus virá salvar-vos» (Is 35, 4). Esta profecia realizou-se. Seja-me pois permitido gritar de júbilo: Alegrai-vos, filhos de Adão, alegrai-vos; deixai para trás todo o desalento! Perante a vossa fraqueza e a vossa incapacidade de resistir a tantos inimigos, «abandonai todo o receio, o próprio Deus virá salvar-vos». Como é que Ele veio salvar-vos? Dando-vos a força necessária para enfrentar e ultrapassar todos os obstáculos que se opõem à vossa salvação. E como é que o Redentor vos deu essa força? Fazendo-Se fraco, de forte e todo-poderoso que era; Ele tomou sobre Si toda a nossa fraqueza, e comunicou-nos a Sua força. […]

Deus é todo-poderoso: «Senhor, clamava Isaías, quem resistirá à força do Teu braço?» (40, 10). […] Mas as feridas feitas no homem pelo pecado tinham-no enfraquecido tanto que ele era incapaz de resistir aos seus inimigos. O que fez o Verbo eterno, o que fez a palavra de Deus? De forte e todo-poderoso que era, tornou-Se fraco; revestiu-se da fraqueza corporal do homem para dar ao homem, pelos Seus méritos, a força de alma necessária […]; tornou-Se criança […]; e no fim da Sua vida, no Jardim das Oliveiras, encheu-Se de laços, dos quais não Se pode libertar. No Sinédrio, foi preso à coluna para ser flagelado. Depois, com a cruz aos ombros, caiu várias vezes no caminho com falta de forças. Pregado na cruz, não conseguiu libertar-Se. […] E nós somos fracos? Ponhamos a nossa confiança em Jesus Cristo e seremos todo-poderosos: «Tudo posso nAquele que me dá força» dizia o Apóstolo Paulo (Fil 4,13). Eu sou todo-poderoso, não pelas minhas forças, mas pelas forças que me foram dadas pelos méritos do meu Redentor.

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TEMPO COMUM. SEGUNDA SEMANA. QUINTA-FEIRA

13. UMA TAREFA URGENTE: DAR DOUTRINA

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Necessidade premente deste apostolado.

– Formação nas verdades da fé. Estudar e ensinar o Catecismo.

– A oração e a mortificação devem acompanhar todo o apostolado. Só a graça pode mover a vontade a concordar com as verdades da fé.

I. O EVANGELHO DIZ em várias ocasiões que as multidões se aglomeravam à volta do Senhor para que pudessem ser curadas1. Lemos hoje no Evangelho da Missa2 queuma numerosa multidão da Galiléia e da Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, da Transjordânia e dos arredores de Tiro e de Sidon seguia Jesus. Era tanta a gente que o Senhor mandou aos seus discípulos que preparassem uma barca por causa da multidão, para que esta não o oprimisse. Pois Ele curava muitos, e quantos padeciam de algum mal lançavam-se sobre Ele para o tocarem.

São pessoas necessitadas que recorrem a Cristo. E Ele as atende porque tem um coração compassivo e misericordioso. Durante os três anos da sua vida pública, curou muitos, livrou os endemoninhados, ressuscitou mortos… Mas não curou todos os enfermos do mundo nem suprimiu todos os sofrimentos desta vida, porque a dor não é um mal absoluto – ao passo que o pecado o é –, e pode ter um valor redentor incomparável se a unirmos aos sofrimentos de Cristo.

Muitos dos milagres que Jesus realizou foram remédio para inúmeras dores e sofrimentos, mas eram antes de mais nada um sinal e uma prova da sua missão divina, da redenção universal e eterna. E os cristãos continuam no tempo a missão de Cristo: Ide, pois, e ensinai a todos os povos, batizando-os… e ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação do mundo3.

As multidões andam hoje tão necessitadas como naquela época. Também hoje vemos que são como ovelhas sem pastor, que estão desorientadas e não sabem para onde dirigir as suas vidas. A humanidade, apesar de todos os progressos destes vinte séculos, continua a sofrer dores físicas e morais, mas padece sobretudo de uma grande falta da doutrina de Cristo, salvaguardada sem erro pelo Magistério da Igreja. As palavras do Senhor continuam a ser palavras de vida eterna, que ensinam a fugir do pecado, a santificar a vida ordinária, o trabalho, as alegrias, as derrotas e a doença…, e abrem os caminhos da salvação. Esta é a grande necessidade do mundo.

Quando avaliamos a situação da sociedade com os olhos da fé, não precisamos de muito esforço para descobrir que as pessoas “andam desejosas de ouvir a palavra de Deus, embora o dissimulem exteriormente. Talvez alguns se tenham esquecido da doutrina de Cristo; outros – sem culpa sua – nunca a aprenderam, e vêem a religião como uma coisa estranha. Mas convencei-vos de uma realidade sempre atual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais, em que não lhe bastam as explicações habituais, em que não a satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que nem então o admitam, essas pessoas sentem fome de saciar a sua inquietação nos ensinamentos do Senhor”4.

Está nas nossas mãos este tesouro da doutrina, para que possamos dá-lo a tempo e a destempo5, oportuna e inoportunamente, através de todos os meios ao nosso alcance. E esta é a tarefa verdadeiramente urgente que incumbe a todos os cristãos.

II. PARA PODERMOS DAR a doutrina de Jesus Cristo, é preciso que a tenhamos no entendimento e no coração: que a meditemos e amemos. Todos os cristãos, cada um segundo os dons que recebeu – talento, estudos, circunstâncias… –, tem que servir-se dos meios necessários para adquiri-la. E não serão poucas as vezes em que essa formação começará por um conhecimento aprofundado do Catecismo, que são esses livros “fiéis aos conteúdos essenciais da Revelação e atualizados quanto ao método, capazes de educar numa fé robusta as gerações de cristãos dos novos tempos”6, como diz João Paulo II.

A vida de fé leva a um fluxo contínuo de aquisição e transmissão das verdades reveladas: Tradidi quod accepi… Transmito-vos aquilo que recebi7, dizia São Paulo aos cristãos de Corinto. A fé da Igreja é fé viva, porque é continuamente recebida e entregue. De Cristo aos Apóstolos, destes aos seus sucessores. Assim até hoje: é sempre idêntica a fé que ressoa no Magistério vivo da Igreja8. Que bons alto-falantes não teria o Senhor se todos os cristãos se decidissem – cada um no seu lugar – a proclamar a sua doutrina salvadora, a ser elos dessa corrente que se prolongará até o fim dos tempos! Ide e ensinai…, diz o próprio Cristo a todos nós.

Trata-se de difundir espontaneamente a doutrina, de um modo às vezes informal, mas que será extraordinariamente eficaz, tal como aconteceu com os primeiros cristãos: de família para família; entre colegas de trabalho ou de estudo, entre os pais dos alunos de uma escola; nos bairros, nos mercados, nas ruas.

O trabalho, a rua, a associação profissional, a Universidade, os estabelecimentos comerciais, a vida civil… convertem-se então em veículos de uma catequese discreta e atraente, que penetra até o fundo dos costumes da sociedade e da vida dos homens. “Acredita em mim: o apostolado, a catequese, de ordinário, tem de ser capilar: um a um. Cada homem de fé com o seu companheiro mais próximo. – Aos que somos filhos de Deus, importam-nos todas as almas, porque nos importa cada alma”9.

Como devem comover o coração de Deus essas mães que, talvez sem tempo disponível, explicam pacientemente as verdades do Catecismo aos seus filhos… e talvez aos filhos das suas vizinhas e amigas! Ou o estudante que vai a um bairro longínquo, para explicar essas verdades aos meninos da localidade, ainda que depois tenha de sacrificar o sono para preparar a prova que terá na semana seguinte!

“Perante tanta ignorância e tantos erros a respeito de Cristo, da sua Igreja…, das verdades mais elementares, os cristãos não podem ficar passivos, pois o Senhor nos constituiu como sal da terra (Mt 5, 13) e luz do mundo (Mt 5, 14). Todos os cristãos devem participar na tarefa de formação cristã, devem sentir a urgência de evangelizar, que não é para mim motivo de glória, mas uma obrigação (1 Cor 9, 16)”10.

Ninguém pode desentender-se desta urgente missão. “Tarefa do cristão: afogar o mal em abundância de bem. Não se trata de campanhas negativas, nem de ser antinada. Pelo contrário: viver de afirmação, cheios de otimismo, com juventude, alegria e paz; ver com compreensão a todos: os que seguem a Cristo e os que o abandonam ou não o conhecem. – Mas compreensão não significa abstencionismo nem indiferença, e sim atividade”11, iniciativa, anelo profundo de dar a conhecer a todos o rosto amável do Senhor.

III. AO PERCEBERMOS A EXTENSÃO da tarefa de difundir a doutrina de Jesus Cristo, devemos começar por pedir ao Senhor que nos aumente a fé: Fac me tibi semper magis credere, fazei com que eu creia mais e mais em Vós, suplicamos no Adoro te devote, o hino eucarístico de São Tomás de Aquino. E assim poderemos dizer também com palavras desse hino: “Creio em tudo o que me disse o Filho de Deus; nada mais verdadeiro que esta Palavra de verdade”. Com uma fé robustecida, estaremos preparados para ser instrumentos nas mãos do Senhor.

Só a graça de Deus pode mover a vontade a aceitar as verdades da fé. Por isso, na nossa tarefa de atrair os nossos amigos à verdade cristã, devemos renovar constantemente a nossa fé com uma oração humilde e contínua; e, juntamente com a oração, a penitência: um espírito habitual de mortificação, provavelmente em detalhes pequenos relativos à vida familiar, ao trabalho…, mas sempre sobrenatural e concreta. Lembremo-nos sempre de que a oração se valoriza com o sacrifício: “A ação nada vale sem a oração; a oração valoriza-se com o sacrifício”12.

Perante as barreiras que encontraremos por vezes em ambientes difíceis, e perante obstáculos que poderiam parecer insuperáveis, encher-nos-emos de otimismo se nos recordarmos de que a graça de Deus pode mover os corações mais duros, e de que a ajuda sobrenatural é tanto maior quanto maiores forem as dificuldades que encontremos.

Senhor, ensinai-nos a fazer com que muitos Vos conheçam! Também nos nossos dias as multidões andam perdidas e necessitadas de Vós, cheias de ignorância e tantas vezes sem luz e sem caminho. Santa Maria, ajudai-nos a não desperdiçar nenhuma ocasião de dar a conhecer o vosso Filho Jesus Cristo! Fazei com que saibamos entusiasmar muitos dos nossos amigos e animá-los a seguir-nos nesta nobre tarefa de difundir a Verdade que salva!

(1) Cfr. Lc 6, 19; 8, 45; etc.; (2) Mc 3, 7-12; (3) Mt 28, 19-20; (4) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 260; (5) cfr. 2 Tim 4, 2; (6) João Paulo II, Exhort. Apost. Catechesi tradendae, 16-X-1979, pág. 50; (7) cfr. 1 Cor 11, 23; (8) cfr. P. Rodríguez, Fe y vida de fe, pág. 164; (9) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 943; (10) João Paulo II, Discurso em Granada, 15-XI-1982; (11) São Josemaría Escrivá, Sulco, n. 864; (12) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 81.

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OITAVÁRIO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS

20 DE JANEIRO. TERCEIRO DIA DO OITAVÁRIO

6. O DEPÓSITO DA FÉ

– Fidelidade sem concessões à doutrina revelada. O diálogo ecumênico deve basear-se no sincero amor à verdade divina.

– Expor a doutrina com clareza.

Veritatem facientes in caritate, proclamar a verdade com caridade, sempre com compreensão para com as pessoas.

I. O ESPÍRITO SANTO impele todos os cristãos a realizarem múltiplos esforços para que se alcance a plenitude da unidade desejada por Cristo1; é Ele quem promove os desejos de diálogo ecumênico. Mas este diálogo, para que tenha razão de ser, deve tender para a verdade e fundamentar-se nela. Não pode consistir, portanto, num simples intercâmbio de opiniões, nem num mútuo acordo sobre a visão particular que cada um tenha dos problemas que se apresentam e das suas possíveis soluções. Pelo contrário, deve expressar com clareza e nitidez as verdades que Cristo deixou em depósito ao Magistério da Igreja, as únicas que podem salvar; deve manifestar o conteúdo e o significado dos dogmas e, ao mesmo tempo, fomentar nas almas um maior desejo de seguir o Senhor de perto, isto é, a ânsia de santidade pessoal.

A verdade do cristão é salvadora precisamente porque não resulta de profundas reflexões humanas, mas é fruto da revelação de Jesus Cristo, confiada aos Apóstolos e aos seus sucessores, o Papa e os bispos, e transmitida pela Igreja como canal divino, com a assistência constante do Espírito Santo. Cada geraçãorecebe o depósito da fé, o conjunto de verdades reveladas por Cristo, etransmite-o íntegro à seguinte, e assim até o fim dos tempos.

Guarda o depósito que te foi confiado
2, escrevia São Paulo a Timóteo. E São Vicente de Lerins comenta: “O que é o depósito? É aquilo em que creste, não o que encontraste; o que recebeste, não o que pensaste; algo que procede, não do engenho pessoal, mas da doutrina; não fruto de um roubo privado, mas da tradição pública. É uma coisa que chegou até ti, que por ti não foi inventada; algo de que não és autor, mas guardião; não criador, mas conservador; não condutor, mas conduzido. Guarda o depósito: conserva limpo e inviolado o talento da fé católica. Aquilo em que creste, isso mesmo permaneça em ti, isso mesmo entrega-o aos outros. Recebeste ouro, devolve ouro; não substituas uma coisa por outra, não ponhas chumbo em lugar de ouro, não mistures nada fraudulentamente. Não quero aparência de ouro, mas ouro puro”3.

O diálogo ecumênico não consiste em inventar novas verdades, nem em alcançar um pensamento concorde, um conjunto de doutrinas aceito por todos, depois de cada um ter cedido um pouco. A doutrina revelada não permite composições, porque é de Cristo, e é a única que salva. O desejo de união com todos e a caridade não podem levar-nos – deixaria de ser caridade – “a amortecer a fé, a tirar-lhe as arestas que a definem, a dulcificá-la até convertê-la, como pretendem alguns, em algo de amorfo que não tem a força e o poder de Deus”4.

O desejo de diálogo com os irmãos separados, e com todos aqueles que dentro da Igreja se encontram longe de Cristo, deve levar-nos, pois, a meditar com freqüência no empenho com que nos esforçamos por melhorar a nossa formação pessoal, o conhecimento adequado da verdade revelada. Agora, nestes minutos de oração pensemos como é que aproveitamos esses meios que temos ao nosso alcance para uma formação intensa e constante: em particular, a leitura espiritual e o estudo metódico da doutrina cristã.

II. A BOA NOVA que a Igreja proclama é precisamente fonte da salvação porque é a mesma verdade pregada por Cristo. “Consciente disso, Paulo quer confrontar a doutrina que anuncia com a dos outros Apóstolos, para estar certo da autenticidade da sua pregação (Gal 2, 10); e durante toda a sua vida, nunca deixou de recomendar a fidelidade aos ensinamentos recebidos, porque ninguém pode estabelecer outro fundamento senão aquele que já foi estabelecido, que é Jesus Cristo (1 Cor 3, 11)”5.

A verdade que recebemos do Senhor é una, imutável, integramente conservada nos começos e através dos séculos, e nunca será lícito relativizá-la e aceitar dela somente aquilo que pareça conveniente, pois “qualquer atentado à unidade da fé é um atentado contra o próprio Cristo”6. São Paulo está tão profundamente convencido desta verdade que não cessa de censurar nas suas Epístolas as pequenas facções que iam aparecendo naquela primeira época. Trago-vos à memória, irmãos, o Evangelho que vos tenho pregado, que recebestes, no qual vos mantendes firmes e pelo qual sois salvos […]. Pois transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas e depois aos doze. Posteriormente, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais muitos ainda vivem e alguns morreram7.

O Apóstolo anuncia a esses primeiros cristãos que a doutrina que devem crer não é uma teoria sua, pessoal, nem de nenhum outro, mas a doutrina comum dos Doze, daqueles que foram testemunhas da vida, morte e ressurreição de Cristo, de quem por sua vez a receberam. O conteúdo da fé – nos primeiros tempos e hoje – encontra-se resumido no Credo, que tem a sua origem nos ensinamentos de Jesus, transmitidos pelos Apóstolos com a assistência constante do Espírito Santo. Este conteúdo não é uma teoria abstrata acerca de Deus, mas a verdade salvadora revelada pelo Senhor, que tem umas conseqüências práticas e reais no nosso modo de ser, de pensar, de trabalhar, de agir… Por não resultar de um convênio humano nem ser uma doutrina inventada pelos homens, “é absolutamente necessário expor com clareza toda a doutrina. Nada é tão alheio ao ecumenismo – ensina o Concílio Vaticano II – como aquele falso irenismo que desvirtua a pureza da doutrina católica e obscurece o seu sentido genuíno”8.

O verdadeiro objetivo do diálogo ecumênico, bem como de todo o diálogo apostólico, reside, pois, em procurar a comunhão mais perfeita com a verdade salvadora de Cristo. O progresso no conhecimento e na aceitação dessa verdade necessita da contínua assistência do Espírito Santo, a quem pedimos luz nestes dias, e de estudo e reflexão para podermos entender e explicar cada vez de modo mais claro tudo aquilo que Jesus Cristo nos revelou, e que se encontra guardado como um tesouro no seio da Igreja Católica. Só então é que podemos compreender – diz Paulo VI – por que a Igreja, “ontem e hoje, dá tanta importância à rigorosa conservação da autêntica revelação, por que a considera um tesouro inviolável e tem uma consciência tão severa do seu dever fundamental de defender e transmitir em termos inequívocos a doutrina da fé. A ortodoxia é a sua primeira preocupação; o magistério pastoral, a sua função primária e providencial […]; e o lema do Apóstolo Paulo: Depositum custodi (1 Tim 6, 20; 2 Tim 1, 14), constitui para ela um compromisso tal, que seria uma traição violá-lo.

“A Igreja, mestra, não inventa a sua doutrina; ela é testemunha, guardiã, intérprete, meio; e naquilo que se refere às verdades próprias da mensagem cristã, pode-se dizer que é conservadora, intransigente; e a quem lhe pede que torne a sua fé mais fácil, mais de acordo com os gostos da cambiante mentalidade dos tempos, responde-lhe com os Apóstolos: Non possumus, não podemos (At 4, 20)”9. Este ensinamento também deve servir de critério na ação apostólica com aqueles católicos que quereriam adaptar a doutrina, às vezes severa, a uma situação particular em que está ausente o espírito de sacrifício e que, portanto, é incompatível com o seguimento do Senhor.

III. SÃO PAULO RECORDAVA aos primeiros cristãos de Éfeso que deviam proclamar a verdade com caridade: veritatem facientes in caritate10, e é isso o que nós devemos fazer: com aqueles que já estão perto da plena comunhão na fé e com os que possuem apenas um vago sentimento religioso.

Sem ceder na doutrina, devemos ser compreensivos, cordiais. E mais do que isso: se por qualquer circunstância nos encontramos num ambiente ou devemos estar com alguém que nos trata com frieza, seguiremos o sábio conselho de São João da Cruz: “Não pense em outra coisa – exortava o Santo a uma pessoa que lhe pedia luz no meio das suas tribulações e dificuldades – senão que Deus ordena todas as coisas; e onde não há amor, ponha amor e tirará amor”11. Nas pequenas e grandes circunstâncias da vida, teremos abundantes ocasiões de pôr este conselho em prática. E veremos muitas vezes como, quase sem o percebermos, nos foi possível mudar esse ambiente hostil ou indiferente.

A verdade deve ser apresentada integralmente, sem falsas composições, mas de maneira amável; nunca pode ser uma verdade azeda ou implicante, nem imposta à força ou com violência. Todas as pessoas têm o direito de ser tratadas com respeito, de que se aprecie o que sempre há de positivo nas suas idéias ou na sua conduta, por mais que estejam erradas ou que lhes façamos uma crítica legítima. Não devemos julgar ninguém, e muito menos condenar. A mesma caridade que nos anima a manter-nos firmes na fé é a que nos leva a querer bem às pessoas, a compreender, a desculpar, a deixar agir a graça de Deus, que não força nem tira a liberdade das almas.

A compreensão leva-nos a querer saciar a maior necessidade que o coração humano experimenta: a ânsia de verdade e de felicidade, que Deus imprimiu em cada criatura. As circunstâncias em que cada qual se encontra são diferentes, como também o grau de verdade que se alcançou; e para que todos cheguem à plenitude da fé, o nosso afeto e a nossa amizade podem ser a ponte de que Deus muitas vezes se serve para penetrar mais profundamente nessas almas.

Nossa Senhora, se lhe pedirmos que nos ajude, há de ensinar-nos a tratar a cada um como convém: com infinito carinho e respeito pela pessoa, e ao mesmo tempo com imenso amor pela verdade, com um amor que não nos levará, por falsa compreensão, a ceder na doutrina.

(1) Cfr. Conc. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, 4; (2) 1 Tim 6, 20; (3) São Vicente de Lerins, Commonitorio, 22; (4) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 456; (5) João Paulo II, Homilia, 25-I-1987; (6) ib.; (7) 1 Cor 15, 1-6; (8) Conc. Vat. II, op. cit., 11; (9) Paulo VI, Audiência geral, 19-I-1972; (10) Ef 4, 15; (11) São João da Cruz, À Madre Maria da Encarnação, 6-VII-1591.

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