Leituras de 21/01/11


ANO LITÚRGICO “A” – II SEMANA DO TEMPO COMUM

Sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

SANTA INÊS, Virgem e Mártir

Vermelho – Prefácio Comum ou dos Santos – Ofício da Memória

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Antífona: Esta é uma virgem sábia, do número das prudentes, que foi ao encontro de Cristo com sua lâmpada acesa.


Oração do Dia:
Deus eterno e todo-poderoso, que escolheis as criaturas mais frágeis para confundir os poderosos, dai-nos, ao celebrar o martírio de santa Inês, a graça de imitar sua constância na fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.


Primeira Leitura: Hebreus 8, 6-13

Leitura da carta aos Hebreus:

Irmãos, 86 ao nosso Sumo Sacerdote, entretanto, compete ministério tanto mais excelente quanto ele é mediador de uma aliança mais perfeita, selada por melhores promessas.

7 Porque, se a primeira tivesse sido sem defeito, certamente não haveria lugar para outra.

8 Ora, sem dúvida, há uma censura nestas palavras: “Eis que virão dias – oráculo do Senhor – em que estabelecerei, com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova.

9 Não coma a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito. Como eles não permaneceram fiéis ao pacto, eu me desinteressei deles – oráculo do Senhor.

10 Mas esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel depois daqueles dias: imprimirei as minhas leis no seu espírito e as gravarei no seu coração. Eu serei seu Deus, e eles serão meu povo.

11 Ninguém mais terá que ensinar a seu concidadão, ninguém a seu irmão, dizendo: ´Conhece o Senhor´, porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior.

12 Eu lhes perdoarei as suas iniquidades, e já não me lembrarei dos seus pecados”.

13 Se Deus fala de uma aliança nova é que ele declara antiquada a precedente. Ora, o que é antiquado e envelhecido está certamente fadado a desaparecer.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 85/84

A verdade e o amor se encontrarão.

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,
concedei-nos também vossa salvação!
Está perto a salvação dos que o temem,
e a glória habitará em nossa terra.

A verdade e o amor se encontrarão,
a justiça e a paz se abraçarão;
da terra brotará a fidelidade,
e a justiça olhará dos altos céus.

O Senhor nos dará tudo o que é bom,
e a nossa terra nos dará suas colheitas;
a justiça andará na sua frente
e a salvação há de seguir os passos seus.

Evangelho: Marcos 3, 13-19

Aleluia, aleluia, aleluia.

Em Cristo, Deus reconciliou consigo mesmo a humanidade; e a nós ele entregou esta reconciliação (2Cor 5,19).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos:

Naquele tempo, 313 Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis. E foram a ele.

14 Designou doze dentre eles para ficar em sua companhia.

15 Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios.

16 Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro;

17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer “Filhos do Trovão”.

18 Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador;

19 e Judas Iscariotes, que o entregou.

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Os que Ele quis… (Mc 3, 13-19)

Devia parecer natural o fato de Jesus chamar como membros do seu grupo mais próximo aqueles “que Ele quis”. Ou o Filho de Deus não teria o direito de livre escolha? Pois, muitas vezes, não é assim que nos parece. Tal como no romance “Ciúme de Deus”, haverá sempre alguém descontente com as escolhas feitas por Deus e, logo, disposto a fazer sentar-se o Senhor no banco dos réus.

No entanto, esta passagem do Evangelho nos põe de frente com a infinita liberdade divina, que faz sempre o bem, pois é infenso ao mal, mesmo quando não somos capazes de percebê-lo. E como são estranhas as escolhas de Deus!

Entre tantos inteligentes, Deus escolhe uma cabeça limitada, como o Cura D’Ars. Entre tantos homens experientes, Deus escolhe um garoto como Samuel. Entre tantos guerreiros temperados pelo combate, Deus escolhe o pastor Davi. É assim…

Na escolha dos Doze Apóstolos, não foi diferente. Aliás, que grupo mais heterogêneo! Pescadores, cobrador de impostos, dois guerrilheiros, certamente algum agricultor… Gente de cultura grega (ver os nomes de Filipe e André), gente de cultura hebraica (ver Simão e Tiago). Em suma, uma salada humana. Mas o impacto maior vem da escolha do futuro traidor. Ou ele faria um papel indispensável no drama do Calvário?

Outro aspecto importante é notar que em Deus existe uma “vontade”. Existem desígnios em Deus. Sendo um Deus pessoal, ele “quer”, isto é, possui sua própria volição. Desde a eternidade – e por todo o tempo da História da Salvação – Deus “quer” que todos se salvem. Criação e salvação manifestam a nossos olhos o amoroso querer de Deus. O Filho sabe disso e só quer exatamente aquilo que deseja o Pai (cf. Lc 22, 42; Hb 10, 7.9-10).

Nas pegadas de Jesus, os santos deste mundo são santificados enquanto procuram corresponder à vontade de Deus em suas vidas. Aliás, não existe outro caminho de santificação a não ser este: obedecer. E o caminho da perdição será sempre o mesmo: rebeldia e desobediência. Foi assim no Éden, foi assim na queda dos anjos, assim será em cada percurso humano.

Estamos vivendo um tempo de rebeldia generalizada. Filhos desobedecem aos pais. Leis e normas são tratadas com desprezo pelos cidadãos. Os rebeldes são incensados como ídolos, tendo como único valor a quebra da tradição.

Enquanto isso, no Getsêmani, Jesus sua sangue, mas não abre mão da vontade do Pai. Dos Doze que Ele chamou, onze darão a vida na obediência…

Orai sem cessar: “Meu coração só reverencia vossas palavras!” (Sl 119, 161)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), Carmelita, Doutora da Igreja

MS A, 2 r°-v° (Manuscritos autobiográficos, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1960, tradução de F. Pires Lopes, S.J.)


O mistério da vocação

Não vou fazer outra coisa senão começar a cantar o que eternamente devo repetir – «As misericórdias do Senhor»!!! (Sl 88,1) […] Abrindo […] o santo Evangelho, os meus olhos caíram sobre estas palavras: «Tendo Jesus subido a um monte, chamou a Si aqueles que lhe aprouve; e vieram para Ele».

Eis todo o mistério da minha vocação, da minha vida inteira e, sobretudo, o mistério dos privilégios de Jesus para com a minha alma… Não chama aqueles que são dignos, mas aqueles que Lhe apraz ou, como diz São Paulo: «Deus tem piedade de quem Ele quer e faz misericórdia a quem Ele quer fazer misericórdia. Não é portanto do que quer nem do que corre, mas de Deus que faz misericórdia» (Rom 9, 15-16).

Durante muito tempo me perguntei porque é que Deus tinha preferências, porque é que nem todas as almas recebiam igual medida de graças; admirava-me ao vê-Lo prodigalizar favores extraordinários aos Santos que o tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho e que Ele forçava, por assim dizer, a receber as Suas graças; ou então, ao ler a vida dos santos que Nosso Senhor Se comprazia em acarinhar, deste o berço à sepultura, sem permitir no seu caminho qualquer obstáculo que os impedisse de se elevarem para Ele. […] Jesus dignou-se instruir-me acerca deste mistério. Colocou diante de mim o livro da natureza e compreendi que todas as flores que Ele criou são belas. […] Quis criar os grandes santos que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outras, mais pequenas e estas devem contentar-se com ser margaridas ou violetas, destinadas a deleitar os olhares de Deus quando as curva aos Seus pés. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos…

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TEMPO COMUM. SEGUNDA SEMANA. SEXTA-FEIRA

14. VOCAÇÃO PARA A SANTIDADE

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Vocação dosDoze. Deus é quem chama e quem dá as graças para perseverar.

– No cumprimento da sua vocação, o homem dá glória a Deus e encontra a grandeza da sua vida.

– Fiéis à chamada pessoal que recebemos de Deus.

I. DEPOIS DE UMA NOITE em oração1, Jesus escolheu os doze Apóstolos para que o acompanhassem ao longo da sua vida pública e depois continuassem a sua missão na terra. Os Evangelistas deixaram-nos consignados os seus nomes e hoje os recordamos na leitura do Evangelho da Missa2. Havia vários meses que, juntamente com outros discípulos, seguiam o Mestre pelos caminhos da Palestina, dispostos a uma entrega sem limites. E agora são objeto de uma predileção muito particular.

Ao escolhê-los, Cristo estabelece os alicerces da sua Igreja: estes doze homens hão de ser como que os doze Patriarcas do novo Povo de Deus, a sua Igreja: um Povo que há de formar-se não pela descendência segundo a carne, como acontecera com Israel, mas por uma descendência espiritual. Por que chegaram os Apóstolos a gozar de um favor tão grande da parte de Deus? Por que precisamente eles e não outros?

A pergunta não faz sentido. Simplesmente, foram chamados pelo Senhor. E foi nessa libérrima escolha de Cristo – chamou os que quis – que radicou a honra e a essência da vocação que receberam. Não fostes vós que me escolhestes – dir-lhes-á mais tarde –, mas eu que vos escolhi3.

A escolha é sempre coisa de Deus. Os Apóstolos não se distinguiam pelo seu saber, poder ou importância; eram homens normais e correntes, mas foram escolhidos por Deus.

Cristo escolhe os seus colaboradores, e esse chamamento é o único título que eles possuem. São Paulo, por exemplo, para sublinhar a autoridade com que ensina e admoesta os fiéis, começa com freqüência as suas Epístolas com estas palavras: Paulo, pela vontade de Deus Apóstolo de Cristo Jesus, para anunciar a promessa de vida em Cristo Jesus4. Chamado e escolhido não pelos homens nem por intermédio de algum homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai5. Em todo o seu discurso está presente esta realidade: a escolha divina.

Jesus chama com autoridade e ternura, tal como Javé tinha chamado os seus profetas e enviados: Moisés, Samuel, Isaías… Nunca os chamados mereceram de forma alguma, nem pela sua boa conduta, nem pelas suas condições pessoais, a vocação para a qual foram escolhidos. São Paulo sublinha-o explicitamente: Chamou-nos com uma vocação santa, não por causa das nossas obras, mas em virtude do seu desígnio6. Mais ainda, Deus costuma escolher, para o seu serviço e para as suas obras, pessoas com virtudes e qualidades desproporcionadamente pequenas para aquilo que realizarão com a ajuda divina. Considerai o vosso chamamento, pois não há entre vós muitos sábios segundo a carne7.

O Senhor também nos chama para que continuemos a sua obra redentora no mundo, e as nossas fraquezas não nos podem surpreender e muito menos desanimar, como também não nos há de assustar a desproporção entre as nossas condições pessoais e a tarefa que Deus põe diante de nós. Ele sempre dá o incremento; apenas nos pede a nossa boa vontade e a pequena ajuda que as nossas mãos lhe podem prestar.

II. CHAMOU OS QUE QUIS. A vocação é sempre e em primeiro lugar uma escolha divina, sejam quais forem as circunstâncias que tenham acompanhado o momento em que se aceitou essa escolha. Por isso, uma vez recebida, não tem cabimento discuti-la com raciocínios humanos, que sempre são pobres e curtos. O Senhor sempre dá as graças necessárias para perseverar, pois, como ensina São Tomás, quando Deus escolhe determinadas pessoas para uma missão, prepara-as e cuida de que sejam idôneas para que possam levar a cabo aquilo para que foram escolhidas8.

No cumprimento dessa missão, o homem descobre a grandeza da sua vida, “porque a chamada divina e, em última análise, a revelação que Deus faz do seu ser é, simultaneamente, uma palavra que revela o sentido e o ser da vida do homem. É na escuta e na aceitação da palavra divina que o homem chega a compreender-se a si próprio e a adquirir, portanto, uma coerência no seu ser […]. Por isso o comportamento mais forte perante mim mesmo, a mais completa honestidade e coerência com o meu próprio ser acontecem no meu compromisso perante esse Deus que me chama”9.

O Senhor também hoje chama os seus apóstolos para que estejam com Ele, pela recepção dos sacramentos e pela vida de oração, pela santidade pessoal, e para serem enviados a pregar, mediante uma presença apostólica ativa em todos os ambientes. E, ainda que o Mestre faça algumas chamadas específicas, a vida cristã de qualquer fiel, mesmo a mais normal e corrente, implica uma vocação singular: a de seguir o Senhor com uma nova vida cuja chave Ele possui: Se alguém quiser vir após mim…10 “Todos os fiéis de qualquer estado e condição de vida estão chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”, diz o Concílio Vaticano II11.

Esta plenitude de vida cristã pede a heroicidade das virtudes. O Senhor nos quer santos, no sentido estrito dessa palavra, no meio das nossas ocupações, com uma santidade alegre, atraente. Ele nos dá a força e as ajudas necessárias para isso.

Saibamos dizer a Jesus muitas vezes que Ele pode contar conosco, com a nossa boa vontade em segui-lo no lugar em que estamos, e sem estabelecer-lhe limites ou condições.

III. A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO pessoal é o momento mais importante de toda a vida. Da resposta fiel a essa chamada divina dependem a felicidade própria e a de muitos outros. Deus cria-nos, prepara-nos e chama-nos em função de um desígnio eterno. “Se hoje em dia tantos cristãos vivem à deriva, com pouca profundidade e limitados por horizontes pequenos, isso se deve sobretudo à falta de uma consciência clara da sua própria razão de ser e de existir […]. O que eleva o homem, o que realmente lhe confere uma personalidade, é a consciência da sua vocação, a consciência da sua tarefa concreta. Isso é o que enche uma vida de conteúdo”12.

A decisão inicial de seguir o Senhor é, porém, a base de muitas outras chamadas ao longo da vida. A fidelidade realiza-se dia após dia, normalmente em coisas que parecem de pouca importância, nos pequenos deveres cotidianos, no cuidado em afastar tudo aquilo que possa ferir o que é a essência da própria vida. Não basta preservar a vocação; é preciso renová-la, reafirmá-la constantemente: quando parece fácil e nos momentos em que tudo custa; quando os ataques do mundo, do demônio e da carne se manifestam em toda a sua violência.

Teremos sempre a ajuda necessária para sermos fiéis. Quanto mais dificuldades, mais graças. E com a luta ascética bem determinada – com um exame particular bem concreto –, o amor cresce e se robustece com o passar do tempo; e a entrega, afastada toda a rotina, torna-se mais consciente, mais madura. “Não se trata de um crescimento de tipo quantitativo, como o de um montão de trigo, mas de um crescimento qualitativo, como o do calor que se torna mais intenso, ou como o da ciência que, sem chegar a novas conclusões, se torna mais penetrante, mais profunda, mais unificada, mais certa. Assim, pela caridade tendemos a amar mais perfeitamente, de modo mais puro, mais intimamente, a Deus acima de tudo, e ao próximo e a nós mesmos para que glorifiquemos a Deus neste tempo e na eternidade”13. É esse o crescimento que o Senhor nos pede.

Esforçar-se por crescer em santidade, em amor a Cristo e a todos os homens por Cristo, é assegurar a fidelidade e conseqüentemente uma vida plena de sentido, de amor e de alegria. São Paulo servia-se de uma comparação tirada das corridas no estádio para explicar que a luta ascética do cristão deve ser alegre, como um autêntico esporte sobrenatural. E ao considerar que não tinha atingido a perfeição, dizia que lutava por alcançar o que fora prometido: Uma só coisa é a que busco: lançar-me em direção ao que tenho pela frente, correr para a meta, para alcançar o prêmio a que Deus nos chama das alturas14.

Desde que Cristo irrompeu na sua vida na estrada de Damasco, Paulo entregou-se com todas as suas forças à tarefa de procurá-lo, amá-lo e servi-lo. Foi o que fizeram os demais Apóstolos a partir do dia em que Jesus passou por eles e os chamou. Os defeitos que tinham não desapareceram naquele instante, mas eles seguiram o Mestre numa amizade crescente e souberam ser-lhe fiéis. Nós devemos fazer o mesmo, correspondendo diariamente às graças que recebemos, sendo fiéis cada dia. Assim chegaremos à meta em que Cristo nos espera.

(1) Cfr. Lc 6, 12; (2) Mc 3, 13-19; (3) Jo 15, 16; (4) 2 Tim 1, 1; (5) Gál 1, 1; (6) 2 Tim 1, 9; (7) 1 Cor 1, 26; (8) cfr. São Tomás, Suma Teológica, 3, q. 27, a. 4; (9) P. Rodríguez, Vocación, trabajo, contemplación, EUNSA, Pamplona, 1986, pág. 18; (10) Mt 16, 24; (11) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 40; (12) F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, Aster, Lisboa, pág. 29; (13) R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, Rialp, Madrid, 1976, pág. 106; (14) cfr. Fil 3, 13-14.

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OITAVÁRIO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS

21 DE JANEIRO. QUARTO DIA DO OITAVÁRIO

7. O FUNDAMENTO DA UNIDADE

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– O primado de Pedro prolonga-se na Igreja através dos séculos na pessoa do Romano Pontífice.

– O Vigário de Cristo.

– O Primado, garantia da unidade dos cristãos e caminho para o verdadeiro ecumenismo. Amor e veneração pelo Papa.

I. SÃO JOÃO INICIA a narração da vida pública de Cristo contando-nos como os primeiros discípulos se encontraram com Ele e como André lhe apresentou o seu irmão Pedro. O Senhor deu-lhe as boas-vindas com estas palavras: Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas, que quer dizer Pedro1.

Cefas é a transcrição grega de uma palavra aramaica que quer dizer pedra, rocha, fundamento. Por isso o Evangelista, que escreve em grego, explica o significado do termo empregado por Jesus. Cefas não era nome próprio, mas o Senhor chama assim o Apóstolo para aludir à missão que Ele mesmo lhe revelaria mais adiante. Atribuir um nome equivalia a tomar posse da coisa ou da pessoa nomeada. Assim, por exemplo, Deus constituiu Adão como dono da criação e, em sinal desse domínio, mandou-lhe pôr um nome a todas as coisas2. O nome de Noé foi-lhe posto como sinal de uma nova esperança depois do Dilúvio3. Deus mudou o nome de Abrão para Abraão para lhe dar a entender que seria pai de muitas gerações4.

Os primeiros cristãos consideraram tão significativo o nome Cefas que designaram o Apóstolo por esse nome sem traduzi-lo5; depois, tornou-se corrente chamar-lhePedro, o que motivou o esquecimento, em boa parte, do seu primeiro nome, Simão. O Senhor o chamará com muita freqüência Simão Pedro, juntando ao nome próprio a missão e o ofício que lhe confiava.

Desde o princípio, Pedro ocupou um lugar único entre os discípulos de Jesus e depois na Igreja. Nas quatro listas do Novo Testamento em que se enumeram os doze Apóstolos, São Pedro ocupa sempre o primeiro lugar. Jesus destaca-o dos outros, apesar de João aparecer como o seu predileto: hospeda-se na sua casa6, paga o tributo pelos dois7 e possivelmente aparece-lhe em primeiro lugar depois da Ressurreição8. As expressões Pedro e os seus companheiros9,Pedro e os que o acompanhavam10 são significativas… O anjo diz às mulheres: Ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro…11 Pedro é com muita freqüência o porta-voz dos Doze; e também é ele quem pede ao Senhor que explique o sentido das parábolas12, etc.

Todos sabem desta preeminência de Simão. Assim, por exemplo, os encarregados de arrecadar o tributo dirigem-se a ele para cobrar as dracmas do Mestre13. Esta superioridade não se deve à sua personalidade, mas à distinção de que é objeto por parte de Jesus, que lhe concederá de modo solene um poder que será o fundamento da unidade da Igreja e que se prolongará nos seus sucessores até o fim dos tempos: “O Romano Pontífice – ensina o Concílio Vaticano II –, como sucessor de Pedro, é o princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade, quer dos bispos, quer da multidão dos fiéis”14.

Nestes dias em que a nossa oração se propõe obter do Senhor a unidade de todos os cristãos, temos que pedir de modo muito particular pelo Papa, de quem depende toda a unidade. Devemos pedir pelas suas intenções, pela sua pessoa, pelo bom andamento dos assuntos que o ocupam, certos de que será uma oração muito grata ao Senhor.

II. ESTANDO EM CESARÉIA de Filipe, enquanto caminhavam, Jesus perguntou aos seus discípulos o que as pessoas pensavam dEle. E eles, com simplicidade, contaram o que se dizia da sua Pessoa. Então Jesus quis saber o que eles próprios pensavam, depois daqueles anos em que o vinham seguindo: E vós, quem dizeis que eu sou? Pedro adiantou-se a todos e disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. O Senhor respondeu-lhe com estas palavras tão transcendentais para a história da Igreja e do mundo: Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo quanto ligares na terra será ligado nos céus, e tudo quanto desligares na terra será desligado nos céus15.

Este texto encontra-se em todos os códices antigos e é citado já pelos primeiros autores cristãos16. O Senhor estabelece a Igreja sobre a própria pessoa de Simão: Tu és Pedro e sobre esta pedra… As palavras de Jesus dirigem-se a ele pessoalmente: Tu…, e contêm uma clara alusão ao primeiro encontro que tivera com o Apóstolo17. O discípulo é o alicerce firme sobre o qual se eleva esse edifício em construção que é a Igreja. A prerrogativa própria de Cristo, como a única pedra angular18, comunica-se a Pedro. Eis a razão pela qual mais tarde o sucessor de Pedro será chamado Vigário de Cristo, isto é, aquele que o supre e faz as suas vezes. É também a razão pela qual Santa Catarina de Sena dará ao Papa o tocante título de doce Cristo na terra19. O Senhor vem a dizer a Pedro: “Ainda que Eu seja o fundamento e fora de Mim não possa haver outro, no entanto também tu, Pedro, és pedra, porque Eu mesmo te constituo como alicerce e porque te comunico as minhas prerrogativas, que agora passam a ser comuns aos dois”20.

Naqueles tempos de cidades amuralhadas, o ato de entregar as chaves a alguém significava simbolicamente conferir-lhe a autoridade e o cuidado da cidade. Cristo deposita em Pedro a responsabilidade de guardar a Igreja e de velar por ela, quer dizer, confere-lhe a autoridade suprema sobre ela. Por sua vez, ligar e desligar, na linguagem semita da época, significava “proibir e permitir”. Além de fundamento, Pedro e os seus sucessores serão, portanto, os encarregados de orientar, mandar, proibir, dirigir… E este poder, como tal, será ratificado no Céu. Além disso, o Vigário de Cristo, apesar da sua debilidade pessoal, terá por missão fortalecer os outros Apóstolos e todos os cristãos. Na Última Ceia, Jesus dir-lhe-á: Simão, Simão, eis que Satanás vos buscou para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça, e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos21. Agora, no momento em que recorda as verdades supremas, em que institui a Eucaristia e em que a sua morte está próxima, Jesus renova a promessa do Primado: a fé de Pedro não pode desfalecer porque se apóia na eficácia da oração de Cristo.

Pela oração de Jesus, Pedro não desfaleceu na sua fé, apesar de ter caído. Levantou-se, confirmou os seus irmãos e foi a pedra angular da Igreja. “Onde está Pedro, aí está a Igreja; onde está a Igreja, não há morte, mas vida”22, comenta Santo Ambrósio. Aquela oração de Jesus, a que hoje unimos a nossa, conserva a sua eficácia através dos séculos23.

III. A PROMESSA que Jesus fez a Pedro em Cesaréia de Filipe cumpre-se depois da Ressurreição, às margens do lago de Genesaré, após uma pesca milagrosa semelhante àquela primeira em que Simão tinha deixado as barcas e as redes para seguir definitivamente Jesus24.

Pedro é proclamado por Cristo seu continuador, seu vigário, com essa missão pastoral que o próprio Cristo definira como sua missão mais característica e preferida: Eu sou o Bom Pastor.

“O carisma de São Pedro passou aos seus sucessores”25. Ele morreria uns anos mais tarde, mas era preciso que o seu ofício de Pastor supremo durasse eternamente, pois a Igreja – fundada sobre rocha firme – deve permanecer até a consumação dos séculos26.

O Primado é garantia da unidade dos cristãos e meio pelo qual deve desenvolver-se o verdadeiro ecumenismo. O Papa ocupa o lugar de Cristo na terra; devemos amá-lo, escutá-lo, porque a sua voz traz até nós a verdade. E devemos procurar por todos os meios que essa verdade chegue a todos os cantos mais distantes ou mais difíceis da terra, sem deformações, a fim de que muitos desorientados vejam a luz e muitos aflitos recuperem a esperança. Vivendo a Comunhão dos Santos, devemos rezar todos os dias pelo Sumo Pontífice, cumprindo assim um dos mais gratos deveres da nossa caridade ordenada.

A devoção e o amor ao Papa constituem para os católicos um sinal distintivo único, que implica o testemunho de uma fé vivida até as suas últimas conseqüências. O Papa é para nós a presença tangível de Jesus, “o doce Cristo na terra”; e incita-nos a amá-Lo, bem como a ouvir essa voz do Mestre interior que fala em nós e nos diz: Este é o meu eleito, escutai-o, pois o Papa “faz as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice, e age em Seu nome”27.

(1) Jo 1, 42; (2) Gen 2, 20; (3) Gen 5, 20; (4) Gen 17, 5; (5) cfr. Gal 2, 9; 11; 14; (6) Lc 4, 38-41; (7) Mt 17, 27; (8) Lc 24, 34; (9) Lc 9, 32; (10) Lc 8, 45; (11) Mc 16, 7; (12) Lc 12, 41; (13) Mt 17, 24; (14) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 23; (15) Mt 16, 16-20; (16) cfr. J. Auer e J. Ratzinger, Curso de Teología dogmática, vol. VIII: La Iglesia, Herder, Barcelona, 1986, pág. 267 e segs.; (17) Jo 1, 41; (18) cfr. 1 Pe 2, 6-8; (19) Santa Catarina de Sena, Carta 207; (20) São Leão Magno, Sermão 4; (21) Lc 22, 31-32; (22) Santo Ambrósio, Comentário sobre o Salmo 12; (23) cfr. Conc. Vat. I, Const. Pastor aeternus, 3; (24) Jo 21, 15-17; (25) João Paulo II, Alocução, 30-XII-1980; (26) Conc. Vat. II, ib., 2; (27) Conc. Vat. II, ib., 21.

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