Leituras de 23/01/11


ANO LITÚRGICO “A” – III SEMANA DO TEMPO COMUM

Domingo, 23 de janeiro de 2011

Verde – Glória – Creio – III Semana do Saltério

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Antífona: Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor, ó terra inteira; esplendor, majestade e beleza brilham no seu templo santo (Sl 95,1.6).

Oração do Dia: Deus eterno e todo-poderoso, dirigi a nossa vida segundo o vosso amor, para que possamos, em nome do vosso Filho, frutificar em boas obras. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.


Primeira Leitura: Isaías 8, 23—9, 3

Leitura do livro do profeta Isaías:

8 23 No passado o Senhor humilhou a terra de Zabulon e de Neftali, mas no futuro cobrirá de honras o caminho do mar, a Transjordânia e o distrito das nações.

9 1 O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz.

2 Vós suscitais um grande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos.

3 Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira de seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes, como no dia de Madiã.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Salmo responsorial: 27/26

O Senhor é minha luz e salvação.

O Senhor é a proteção da minha vida.

O Senhor é minha luz e salvação;
de quem eu terei medo?
O Senhor é a proteção da minha vida;
perante quem eu tremerei?

Ao Senhor eu peço apenas uma coisa
e é só isto que eu desejo:
habitar no santuário do Senhor
por toda a minha vida;
saborear a suavidade do Senhor
e contemplá-lo no seu templo.

Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver
na terra dos viventes.
Espera no Senhor e tem coragem,
espera no Senhor!

Segunda Leitura: 1ª Coríntios 1, 10-13.17

Leitura da primeira carta de são Paulo aos Coríntios:

Irmãos, 110 rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento.
11 Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós.

12 Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: “Eu sou discípulo de Paulo”; “eu, de Apolo”; “eu, de Cefas”; “eu, de Cristo”.

13 Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?

17 Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; e isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a cruz de Cristo.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Evangelho: Mateus 4, 12-23

Aleluia, aleluia, aleluia.

Pois do reino a boa-nova Jesus Cristo anunciava, e as dores do seu povo, com poder, Jesus curava (Mt 4,23).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus:

412 Quando, pois, Jesus ouviu que João fora preso, retirou-se para a Galiléia.
13 Deixando a cidade de Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, à margem do lago, nos confins de Zabulon e Neftali,

14 para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías:

15 “A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar, a terra além do Jordão, a Galileia dos gentios,

16 este povo, que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz; e surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria da morte”.

17 Desde então, Jesus começou a pregar: “Fazei penitência, pois o Reino dos céus está próximo”.

18 Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.

19 E disse-lhes: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens”.

20 Na mesma hora abandonaram suas redes e o seguiram.

21 Passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam com seu pai Zebedeu consertando as redes. Chamou-os,

22 e eles abandonaram a barca e seu pai e o seguiram.

23 Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Deixando a barca e o pai… (Mt 4, 12-23)

Deixar a barca… Deixar o instrumento que permite a ação, o trabalho, a profissão. Isto significa abrir mão do próprio ganha-pão, das obras que inflam nosso orgulho e nos dão a ilusão de independência.

Na barca, os pescadores parecem mais fortes, pois enfrentam o mar revolto e desafiam os ventos impetuosos. Saem aventurosos e voltam com o fruto de seu trabalho. Mas é preciso deixar a barca…

Deixar o pai… Deixar aquele que foi o gerador da sua vida, o transmissor da tradição, o formador do caráter. Abrir mão do próprio modelo de pessoa, abandonar aquele que lhe deu o nome: Shimon bar Jonas. Simão, filho de Jonas.

Quem tem pai, tem honra, tem nome, tem tradições. O pai é uma âncora do passado que dá firmeza ao presente e segurança ao futuro. A falta da presença paterna costuma deixar profundas cicatrizes no coração humano. Mas é preciso deixar o pai…

Ora, Jesus Cristo nos quer livres. Ele sabe muito bem de nossos múltiplos apegos. E sabe que o amadurecimento de nossa pessoa depende de romper os laços que nos mantêm ainda um tanto infantis, dependentes e – com perdão da palavra – escravos…

Jesus sabe muito bem que os futuros apóstolos deverão exercer um autêntico ministério de paternidade. Os fiéis serão seus filhos. Os fiéis não querem apenas simpáticos companheiros de caminhada, mas pais firmes e maduros, capazes de ensinar e formar, corrigir e – se necessário – punir.

Para seguir a Jesus é preciso romper com os laços que nos prendem e abrir mão dos fardos que nos tiram a mobilidade. O Reino é exigente. A missão não se assume pela metade. A pérola preciosa não divide o espaço da concha.

Um dia, alguém pedirá a Jesus para esperar a morte do pai e, só depois, seguir o Mestre que o chamava. E o Mestre respondeu: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos” (cf. Mt 8, 22). A missão não pode esperar.

Quando Elias passou para Eliseu seu espírito de profecia, este queimou a madeira de seu arado e fez com a junta de bois um churrasco de despedida (cf. 1Rs 19, 19ss). A missão não pode esperar.

E nós? Que estamos esperando?

Orai sem cessar: “O Senhor me chamou desde o ventre de minha Mãe.” (Is 49, 1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança

santini@novaalianca.com.br http://www.novaalianca.com.br

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Comentário ao Evangelho do dia feito por:

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia e em seguida Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja
Homilias sobre o Evangelho de Mateus, n°14, 2


«Vinde Comigo e Eu farei de vós pescadores de homens»

Que pescaria admirável a do Salvador! Admirai a fé e a obediência dos discípulos. Como sabeis, a pesca exige uma atenção ininterrupta. Ora, no meio da sua labuta, eles ouvem o chamamento de Jesus e não hesitam um instante; não dizem: «Deixa-nos ir a casa falar com a nossa família». Não, eles deixam tudo e seguem-n’O, como Eliseu fizera com Elias (1R 19, 20). Esta é a obediência que Cristo nos pede, sem a menor hesitação, mesmo que necessidades aparentemente mais urgentes nos pressionem. É por isso que quando um jovem que queria segui-l’O perguntou se podia ir sepultar o pai, nem isso Ele o deixou fazer (Mt 8, 21). Seguir Jesus, obedecer à Sua palavra, é um dever que tem prioridade sobre todos os outros.

Dir-me-ás talvez que a promessa que Ele lhes fazia era demasiado grande? É por isso que os admiro tanto: embora não tendo ainda assistido a nenhum milagre, eles acreditaram nessa promessa tão grande e renunciaram a tudo para O seguir! Foi porque acreditaram que, com as mesmas palavras com que eles próprios haviam sido como que pescados, também eles poderiam pescar outros.

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TEMPO COMUM. TERCEIRO DOMINGO. CICLO A

16. A LUZ NAS TREVAS

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Jesus traz a luz a um mundo mergulhado em trevas. A fé ilumina toda a vida.

– Os cristãos são a luz do mundo. Exemplaridade nas tarefas profissionais. Competência profissional.

– Eficácia do bom exemplo. Formação doutrinal e vida interior para santificar as realidades terrenas.

I. DOMINUS ILLUMINATIO mea et salus mea: quem timebo? O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?1

Estas palavras do Salmo responsorial são uma confissão de fé e uma manifestação da nossa segurança: fé em Deus, que é a Luz das nossas vidas; segurança, porque em Cristo encontramos as forças necessárias para percorrermos o nosso caminho cotidiano.Luz da luz, dizemos no Credo da Missa, referindo-nos ao Filho de Deus.

A humanidade caminhou nas trevas até que a luz brilhou na terra quando Jesus nasceu em Belém, como pudemos considerar nas semanas passadas. Essa estrela brilhante da manhã2 envolveu com a sua luminosidade Maria, José, os pastores e os Magos. Depois, ocultou-se durante anos na pequena cidade de Nazaré, e o Senhor viveu a vida normal dos seus conterrâneos. Na realidade, continuava a iluminar a vida dos homens, pois com esse ocultamento ao longo dos anos de Nazaré nos mostrou que a vida normal pode e deve ser santificada. Agora, depois de ter deixado Nazaré e de ter sido batizado no Jordão, vai a Cafarnaum para iniciar o seu ministério público3.

São Mateus refere no Evangelho da Missa a profecia de Isaías segundo a qual o Messias iluminaria toda a terra. O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz4. Tal como o sol que acaba de nascer, Jesus traz o resplendor da verdade ao mundo e uma luz sobrenatural às inteligências que não querem continuar a permanecer na escuridão da ignorância e do erro.

São Mateus narra também que os primeiros que, no início da vida pública do Senhor, receberam eficazmente o influxo dessa luz foram aqueles discípulos – primeiro Simão e André, e depois os outros dois irmãos, Tiago e João – que Ele chamou enquanto caminhava junto ao mar da Galiléia. Estes homens “experimentaram o fascínio da luz secreta que emanava dEle e seguiram-na sem demora para que iluminasse com o seu fulgor o caminho das suas vidas. Mas essa luz de Jesus resplandece para todos”5.

Cumpre-se também nos nossos tempos aquela profecia de Isaías que nos é recordada na primeira Leitura da Missa:

O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu a luz. Vós suscitais, Senhor, um grande regozijo, provocais uma grande alegria; rejubilam-se todos na vossa presença como se rejubilam os que ceifam, como exultam os que repartem os despojos6. É a alegria da fé que ilumina toda a nossa conduta; é a maravilha de Jesus que dá sentido a todas as nossas coisas.

II. JESUS CRISTO,luz do mundo7, chamou primeiro uns homens simples da Galiléia, iluminou as suas vidas, ganhou-os para a sua causa e pediu-lhes uma entrega sem condições. Aqueles pescadores da Galiléia saíram da penumbra de uma vida sem relevo nem horizonte para seguirem o Mestre, tal como outros o fariam logo após, e depois já não cessariam de fazê-lo inúmeros homens e mulheres ao longo dos séculos. Seguiram-no até darem a vida por Ele. Nós seguimo-lo também.

O Senhor chama-nos agora para que o sigamos e para que iluminemos a vida dos homens e as suas atividades nobres com a luz da fé; sabemos bem que o remédio para tantos males que afetam a humanidade é a fé em Jesus Cristo, nosso Mestre e Senhor; sem Ele, os homens caminham às escuras e por isso tropeçam e caem. E a fé que devemos comunicar é luz na inteligência, uma luz incomparável: “Fora da fé estão as trevas, a escuridão natural diante da verdade sobrenatural, bem como a escuridão infranatural, que é conseqüência do pecado”8.

As palavras chegarão ao coração dos nossos amigos se antes lhes tiver chegado o exemplo da nossa atuação: as virtudes humanas próprias do cristão – o otimismo, a cordialidade, a firmeza de caráter, a lealdade… Não iluminaria com a sua fé o cristão que não fosse exemplar no seu trabalho ou no seu estudo, que perdesse o tempo, que não fosse sereno no meio das dificuldades, perfeito no cumprimento do seu dever, que lesasse algum aspecto da justiça nas suas relações profissionais…

E pode muito bem acontecer que essa generosidade e esse sentido da justiça no comportamento profissional entrem mais ou menos abertamente em choque com os costumes usuais entre os colegas, ou simplesmente com o egoísmo e o aburguesamento do meio ambiente. O Senhor espera que cada um dos seus discípulos seja realmente fiel à verdade, que se conduza sempre com fortaleza e valentia, porque dessa forma ajudará muitos outros a voltarem a questionar o seu modo de agir, o sentido com que encaram a vida. E talvez tenha que apoiar-se por vezes naquela advertência de São Paulo aos cristãos de Corinto: Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios9. A mensagem de Cristo sempre entrará em choque com uma sociedade contagiada pelo materialismo e por uma atitude conformista e aburguesada perante a vida.

Viriliter age
: sê forte10. Poderíamos perguntar-nos hoje se no nosso círculo de relações somos conhecidos por essa coerência de vida, pela exemplaridade na atuação profissional – ou no estudo, se somos estudantes –, pelo exercício diário das virtudes humanas e sobrenaturais, com a coragem e o esforço perseverante a que nos incita o Espírito Santo.

III. DEUS CHAMA-NOS a todos para que sejamos luz do mundo11, e essa luz não pode ficar escondida: “Somos lâmpadas que foram acesas com a luz da verdade”12.

Para podermos dar a conhecer a doutrina de Jesus Cristo, para que toda a nossa vida seja um facho de luz, devemos empregar os meios necessários para conhecê-la em profundidade, com a profundidade que nos pedem a nossa formação humana, a idade, a responsabilidade perante os filhos, perante o ambiente que nos circunda, perante a sociedade.

Devemos conhecer com precisão os deveres de justiça do nosso trabalho e as exigências da caridade, e cumpri-los; descobrir o bem que podemos fazer, e fazê-lo; refletir sobre o mal que poderia resultar desta ou daquela atuação, e evitá-lo; admitir que em certas ocasiões, talvez não infreqüentes, teremos necessidade de pedir conselho, atuando depois com a responsabilidade pessoal de um bom cristão que é ao mesmo tempo um bom cidadão, um homem fiel.

O Senhor depositou na sua Igreja o tesouro da sua doutrina. Devemos guiar-nos pelo seu Magistério assim como os barcos se guiam pelo farol, para encontrarmos luz e orientação em muitos problemas que afetam a salvação e a dignidade da pessoa humana.

Se somos cristãos que vivem imersos na trama da sociedade, santificando-nos em e através do trabalho, devemos conhecer muito bem os princípios da ética profissional, e aplicá-los depois no exercício diário da profissão, ainda que esses critérios sejam exigentes e nos custe levá-los à prática. Para isso são necessárias vida interior e formação doutrinal.

“Sê exigente contigo! Tu – cavalheiro cristão, mulher cristã – deves ser sal da terra e luz do mundo, porque tens obrigação de dar exemplo com uma santa desvergonha.

“– Há de urgir-te a caridade de Cristo e, ao te sentires e saberes outro Cristo desde o momento em que lhe disseste que o seguias, não te separarás dos teus iguais – parentes, amigos, colegas –, tal como o sal não se separa do alimento que condimenta.

“A tua vida interior e a tua formação abrangem a piedade e o critério que deve ter um filho de Deus, para temperar tudo com a sua presença ativa.

“Pede ao Senhor que sejas sempre esse bom condimento na vida dos outros”13.

Recorremos também à Virgem Maria. Pedimos-lhe coragem e simplicidade para vivermos no meio do mundo sem sermos mundanos, como os primeiros cristãos, para sermos luz de Cristo na nossa profissão e em todos os ambientes de que participamos.

(1) Sl 26, 1; (2) Apoc 22, 16; (3) cfr. João Paulo II, Homilia, 25-I-1981; (4) Mt 4, 16; cfr. Is 9, 1-4; (5) João Paulo II, ib.; (6) Is 9, 2-3; (7) Jo 8, 12; (8) São Josemaría Escrivá, Carta, 19-III-1967; (9) 1 Cor 1, 23; (10) Sl 26, 14; (11) Mt 5, 14; (12) Santo Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de São João, 23, 3; (13) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 450.

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OITAVÁRIO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS

23 DE JANEIRO. SEXTO DIA DO OITAVÁRIO

9. A IGREJA, NOVO POVO DE DEUS

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Nós, cristãos, somos linhagem escolhida, sacerdócio real, povo adquirido por Jesus Cristo.

– Participação dos leigos na função sacerdotal, profética e real de Cristo. A santificação das tarefas seculares.

– O sacerdócio ministerial.

I. DEUS CHAMA PESSOALMENTE, pelo nome, a cada homem1; mas, desde o princípio, “aprouve a Deus santificar e salvar os homens não singularmente, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituindo-os num povo, que o conhecesse na verdade e santamente o servisse”2. Quis escolher entre as nações da terra o povo de Israel para manifestar-se a Si próprio e revelar os desígnios da sua vontade. Estabeleceu uma aliança com ele, que foi renovada diversas vezes. Mas tudo isso sucedeu como figura e preparação do novo Povo de Deus, a Igreja, que Jesus resgataria para Si com o seu Sangue derramado na Cruz. Nela cumprem-se plenamente os títulos que se davam no Antigo Testamento ao povo de Israel: é linhagem escolhida3, povo adquirido para apregoar as maravilhas de Deus4.

A qualidade essencial dos que compõem este novo Povo “é a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo como num templo. A sua lei é o preceito novo de amar como o próprio Cristo nos amou (cfr. Jo 13, 34). A sua meta é o Reino de Deus, iniciado pelo próprio Deus na terra”5. Vós – ensina São Pedro aos cristãos da primitiva cristandade – sois linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido para apregoar os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas à sua luz admirável. Vós, que outrora não éreis povo, agora sois povo de Deus; não havíeis alcançado misericórdia, mas agora conseguistes misericórdia6.

Neste novo Povo há um único sacerdote, Jesus Cristo, e um único sacrifício, que teve lugar no Calvário e que se renova todos os dias na Santa Missa. Todos aqueles que compõem este Povo são linhagem escolhida, participam do sacerdócio de Cristo e ficam habilitados a realizar uma mediação sacerdotal, fundamento de todo o apostolado, e a participar ativamente no culto divino. Desta maneira podem converter todas as suas atividades em sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus7.

Trata-se de um sacerdócio verdadeiro, ainda que essencialmente diferente do sacerdócio ministerial, que habilita o sacerdote a fazer as vezes de Cristo, principalmente quando perdoa os pecados e celebra a Santa Missa. No entanto, ambos se ordenam um para o outro e ambos participam, cada um a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Nessa participação do sacerdócio de Cristo, santificamo-nos e encontramos as graças necessárias para ajudar os outros.

II. OS FIÉIS PARTICIPAM da missão de Cristo, e assim impregnam com o espírito do seu Senhor a sua própria vida no meio do mundo e o próprio mundo. As suas orações, a vida familiar e social, as suas iniciativas apostólicas, o trabalho e o descanso, e mesmo as provas e contradições da vida convertem-se numa oferenda santa que chega até Deus principalmente por meio da Santa Missa, “centro e raiz da vida espiritual dos cristãos”8.

Esta participação dos leigos na função sacerdotal de Cristo supõe, pois, uma vida centrada na Santa Missa; mas a sua participação eucarística não se esgota quando assistem ativamente ao Sacrifício do Altar, nem se expressa principalmente em determinadas funções litúrgicas que os leigos também podem desempenhar… O seu campo próprio está na santificação do trabalho cotidiano, no cumprimento dos seus deveres profissionais, familiares, sociais…, que procuram desempenhar com a máxima retidão.

Os leigos participam também da missão profética de Cristo. A sua vocação específica leva-os a anunciar a palavra de Deus, não na Igreja, mas na rua: na fábrica, no escritório, no clube, na família9. Proclamarão a palavra divina, com o seu exemplo, na condição de colegas de trabalho, de vizinhos, de cidadãos…, e com a sugestão oportuna, com a conversa íntima e profunda que brota da amizade verdadeira: ao aconselharem um livro que orienta e ao desaconselharem um espetáculo que não é próprio de um homem de bem, ao infundirem alento – fazendo as vezes de Cristo – e ao prestarem com alegria um pequeno serviço.

O cristão, participa, por fim, da função régia de Cristo. Em primeiro lugar, sendo senhor do seu trabalho profissional, sem se deixar escravizar por ele, mas governando-o e dirigindo-o, com retidão de intenção, para a glória de Deus, para o cumprimento do plano divino sobre toda a criação10. O papel dos leigos não se valoriza nem se potencia quando lhe oferecem a possibilidade de participar da autoridade ou do ministério clerical. Talvez um ou outro possa enveredar por esse caminho, mas deve saber que isso não é o mais adequado a uma vocação secular11. É no mundo, no meio das estruturas seculares da vida humana, que se desenvolve a sua participação na missão de Jesus Cristo. “A sua tarefa principal e imediata – sublinhava Paulo VI – não é estabelecer e desenvolver a comunidade eclesial – pois esta é uma tarefa específica do clero –, mas aproveitar todas as possibilidades cristãs e evangélicas latentes mas já presentes e ativas nos assuntos temporais”12.

Dentro deste novo Povo de Deus que é a Igreja, a participação na missão real de Cristo leva os leigos a impregnar a ordem social dos princípios cristãos que a humanizam e elevam: a dignidade e primazia da pessoa humana, a solidariedade social, a santidade da família e do casamento, a liberdade responsável, o amor à verdade, a promoção da justiça em todos os níveis, o espírito de serviço, a compreensão mútua e a caridade fraterna… “Os leigos não devem ser a longa manus – o braço instrumentalizado – da hierarquia. Não são a extensão de um “sistema” eclesiástico oficial. São – cada um é, por direito próprio e apoiado unicamente na sua piedade, competência e doutrina – a presença de Cristo nos assuntos temporais”13.

Pensemos hoje se a nossa conduta e a nossa atuação diária refletem este critério e este compromisso de levar o mundo a Deus.

III. ESTE NOVO POVO de Deus tem Cristo como Sumo e Eterno Sacerdote. O Senhor assumiu a tradição antiga, transformando-a e renovando-a: instituiu um sacerdócio eterno. Os sacerdotes de Cristo são, cada um deles, instrumento do Senhor e prolongação da sua Santíssima Humanidade. Não atuam em nome próprio, nem são simples representantes do povo, mas fazem as vezes de Cristo. De cada um deles se pode dizer que, escolhido entre os homens, está constituído em favor dos homens para as coisas que dizem respeito a Deus…14

Cristo atua realmente através deles, por meio das suas palavras, gestos, etc., e o seu sacerdócio está íntima e inseparavelmente unido ao sacerdócio de Cristo e à vida e crescimento da Igreja. O sacerdote é pai, irmão, amigo…; a sua pessoa pertence aos outros, pertence à Igreja, que o ama com um amor inteiramente especial e tem sobre ele direitos de que nenhum outro homem pode ser depositário15. “Jesus – ensinava João Paulo II numa numerosa ordenação no Brasil – identifica-nos de tal modo consigo no exercício dos poderes que nos conferiu, que a nossa personalidade como que desaparece diante da sua, já que é Ele quem age por meio de nós. «Pelo sacramento da Ordem, disse alguém com justeza, o sacerdote torna-se efetivamente idôneo para emprestar a Jesus Nosso Senhor a voz, as mãos e todo o seu ser. É Jesus quem, na Santa Missa, com as palavras da consagração, muda a substância do pão e do vinho na do seu corpo e do seu sangue» (cfr. Josemaría Escrivá, Sacerdote per l’eternità, Milano, 1975, pág. 30). E podemos acrescentar – continuava o Papa –: É o próprio Jesus Cristo quem, no Sacramento da Penitência, pronuncia a palavra autorizada e paterna: Os teus pecados te são perdoados (Mt 9, 2; Lc 5, 20; 7, 48; cfr. Jo 20, 23). É Ele quem fala quando o sacerdote, exercendo o seu ministério em nome e no espírito da Igreja, anuncia a palavra de Deus. É o próprio Jesus Cristo quem cuida dos enfermos, das crianças e dos pecadores, quando são envolvidos pelo amor e pela solicitude pastoral dos ministros sagrados”16.

A ordenação sagrada confere o mais alto grau de dignidade que o homem é capaz de receber. Por ela, o sacerdote é constituído ministro de Deus e dispenseiro dos seus tesouros divinos17. Estes tesouros são principalmente a celebração da Santa Missa, de valor infinito, e o poder de perdoar os pecados, de devolver a graça à alma. Além disso, pela ordenação, o sacerdote é constituído medianeiro e embaixador entre Deus e os homens, entre o céu e a terra. Com uma mão recolhe os tesouros da misericórdia divina; com a outra distribui-os entre os seus irmãos os homens.

Um sacerdote é um imenso bem para a Igreja e para toda a humanidade. Por isso, temos de pedir que nunca faltem sacerdotes santos, que se sintam servidores dos seus irmãos os homens, que não esqueçam nunca a sua dignidade e o tesouro que Deus lhes confiou para que o façam chegar generosamente ao resto do Povo de Deus. Bem se pode dizer que “se há algum tempo em que um sacerdote é um espetáculo para os homens e para os anjos, esse tempo é aquele que se abre diante de nós”18. Não deixemos de rezar por eles.

(1) Is 43, 1; (2) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 9; (3) cfr. Ex 19, 5-6; (4) cfr. Is 43, 20-21; (5) Conc. Vat. II, ib.; (6) 1 Pe 2, 9-10; (7) 1 Pe 2, 5; (8) cfr. São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 87; (9) cfr. João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici, 30-XII-1988, 14; (10) cfr. idem, Laborem exercens, 14-IX-1981, 5; (11) cfr. C. Burke, Autoridad y libertad en la Iglesia, Rialp, Madrid, 1988, pág. 196; (12) Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 8-XII-1975, 70; (13) C. Burke, op. cit., pág. 203; (14) cfr. Hebr 5, 1-4; (15) cfr. A. del Portillo, Escritos sobre el sacerdocio, Palabra, Madrid, 1970, pág. 81; (16) João Paulo II, Homilia, 2-VII-1980; (17) cfr. 1 Cor 4, 1; (18) Card. J. H. Newman, Sermão na inauguração do Seminário São Bernardo, 2-X-1873.

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