Leituras de 24/01/11


ANO LITÚRGICO “A” – III SEMANA DO TEMPO COMUM

Segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SÃO FRANCISCO DE SALES, Bispo e Doutor

Branco – Prefácio Comum ou dos Pastores – Ofício da Memória

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Antífona: Farei surgir um sacerdote fiel, que agirá segundo o meu coração e a minha vontade, diz o Senhor (1Sm 2,35).

Oração do Dia: Ó Deus, para a salvação da humanidade, quisestes que são Francisco de Sales se fizesse tudo para todos; concedei que, a seu exemplo, manifestemos sempre a mansidão do vosso amor no serviço a nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Primeira Leitura: Hebreus 9, 15.24-28

Leitura da carta aos Hebreus:

Irmãos, 915 por isso Cristo é mediador do novo testamento. Pela sua morte expiou os pecados cometidos no decorrer do primeiro testamento, para que os eleitos recebam a herança eterna que lhes foi prometida.

24 Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus.

25 E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como o pontífice que entrava todos os anos no santuário para oferecer sangue alheio.

26 Do contrário, lhe seria necessário padecer muitas vezes desde o princípio do mundo; quando é certo que apareceu uma só vez ao final dos tempos para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo.

27 Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo,

28 assim Cristo se ofereceu uma só vez para tomar sobre si os pecados da multidão, e aparecerá uma segunda vez, não porém em razão do pecado, mas para trazer a salvação àqueles que o esperam.

Palavra do Senhor.

Graças a Deus!

Salmo Responsorial: 98/97

Cantai ao Senhor Deus um canto novo,
porque ele fez prodígios!

Cantai ao Senhor Deus um canto novo,
porque ele fez prodígios!
Sua mão e o seu braço forte e santo
alcançaram-lhe a vitória.

O Senhor fez conhecer a salvação
e, às nações, sua justiça;
recordou o seu amor sempre fiel
pela casa de Israel.

Os confins do universo contemplaram
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira,
alegrai-vos e exultai!

Cantai salmos ao Senhor ao som da harpa
e da cítara suave!
Aclamai, com os clarins e as trombetas,
ao Senhor, o nosso rei!

Evangelho: Marcos 3, 22-30

Aleluia, aleluia, aleluia.

Jesus Cristo salvador destruiu o mal e a morte; fez brilhar pelo evangelho a luz e a vida imperecíveis (2Tm 1,10).

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos:

Naquele tempo, 322 também os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam: “Ele está possuído de Beelzebul: é pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios.”

23 Mas, havendo-os convocado, dizia-lhes em parábolas: “Como pode Satanás expulsar a Satanás?

24 Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar.

25 E se uma casa está dividida contra si mesma, tal casa não pode permanecer.

26 E se Satanás se levanta contra si mesmo, está dividido e não poderá continuar, mas desaparecerá.

27 Ninguém pode entrar na casa do homem forte e roubar-lhe os bens, se antes não o prender; e então saqueará sua casa.

28 “Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias;

29 mas todo o que tiver blasfemado contra o Espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno.”

30 Jesus falava assim porque tinham dito: “Ele tem um espírito imundo.”

Palavra da Salvação.

Glória a Vós, Senhor!

Se um reino se divide… (Mc 3, 22-30)

A união faz a força. Um feixe de varas resiste mais que uma vara isolada. Isto é sabença do povo. Quando os escribas se recusam a reconhecer os milagres de Jesus como um sinal divino, atribuem a Satanás o poder que se manifestava no Nazareno. Jesus responde com uma argumentação pelo absurdo: se Satã expulsa seus próprios demônios, seu reino está dividido e acabará em ruínas.

Deixando de lado a questão da guerra dos espíritos, vale a pena refletir sobre o princípio que o Senhor nos dá: uma casa dividida não tem futuro. Se os que moram na mesma casa não reúnem suas forças, acabarão arruinados. Esta verdade vale para todos os grupos humanos: famílias, equipes de trabalho, empresas, comunidades e Institutos religiosos. Estes têm o seu carisma como princípio unificador. As empresas possuem os seus objetivos como traço de união. A família vive o amor como a ponte que a todos aproxima, como argamassa que vem reunir solidamente as pedras da construção.

Até no futebol, o senso coletivo deve prevalecer sobre os brilharecos e firulas individuais. Tanto que os americanos chamam este esporte de “soccer”, acentuando seu lado “social” de interação e cooperação. A equipe treina em conjunto, dorme na mesma concentração e, natural, disputa a partida ao mesmo tempo, vestindo a mesma camisa. Se vencem, todos comemoram; se perdem, todos se sentem humilhados.

A Igreja – barca de Pedro – é uma grande tripulação. Estamos espalhados por todos os planetas e há trabalho para todos. Temos um mesmo timoneiro: Jesus. Desempenhamos, no entanto, diferentes funções: uns cuidam das velas, outros observam as estrelas e traçam o rumo, outros cozinham para a tripulação. Todos são essenciais. A falha de um só pode ser o desastre de todos…

Um grupo precisa de rituais de aproximação e convivência. É ali que as almas e os corações se unem, preparando-se para as tempestades que fazem parte de toda viagem. Quando as famílias faziam as refeições em comum e seus membros se levantavam e deitavam na mesma hora, havia mais unidade no lar. Hoje, quando chega a haver um televisor em cada quarto, porque os membros da mesma família não conseguem chegar a um acordo sobre o programa que poderiam ver juntos, o individualismo está minando nossa unidade.

Que posso fazer para estreitar os laços de minha família?

Orai sem cessar: “Oh! Como é bom e agradável

irmãos unidos viverem juntos!” (Sl 133, 1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

santini@novaalianca.com.br www.novaalianca.com.br

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24 DE JANEIRO

11. SÃO FRANCISCO DE SALES

Bispo e Doutor da Igreja

Memória

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– A amabilidade.

– As virtudes da convivência, essenciais para o apostolado.

– O respeito pelas pessoas e o cuidado das coisas.

Francisco de Sales nasceu na Sabóia em 1567. Depois de ordenado sacerdote, trabalhou pela restauração católica da sua pátria. Nomeado Bispo de Genebra, fortaleceu com santo zelo a piedade e a doutrina dos sacerdotes e dos fiéis, dedicando-lhes numerosos escritos. Faleceu em Lyon, a 28 de dezembro de 1622. A sua festa é celebrada no dia 24 de janeiro porque, nesse dia do ano de 1623, os seus restos mortais foram trasladados para a sepultura definitiva em Annecy. Foi beatificado em 1661 e canonizado quatro anos depois. Pio IX declarou-o Doutor da Igreja e Pio XI proclamou-o Padroeiro dos jornalistas e dos escritores católicos.

I. SÃO FRANCISCO DE SALES, já como presbítero, trabalhou intensamente pela fidelidade à Sé Romana de todos os cristãos da sua pátria. Depois, como bispo, foi um exemplo de Bom Pastor no relacionamento com os sacerdotes e os demais fiéis, doutrinando-os incessantemente com a sua palavra e os seus escritos.

A liturgia da Missa anima-nos a pedir ao Senhor a graça de imitarmos a caridade e a mansidão de São Francisco de Sales, a fim de com ele chegarmos à glória do Céu1. Vamos, pois, meditar nas virtudes da amabilidade e da mansidão, virtudes que o santo Bispo de Genebra, permanecendo firme na verdade, praticou com esmero no trato com todas as pessoas, mesmo com as que pensavam e agiam de modo bem diferente do seu. Destas virtudes, que tornam possível ou facilitam a convivência, e que são tão necessárias a todos, dizia o Santo: “É necessário tê-las em grande provisão e muito à mão, pois devem ser usadas quase continuamente”2.

Todos os dias encontramo-nos com pessoas muito diferentes: no trabalho, na rua, entre os parentes… É muito grato ao Senhor que saibamos conviver com todas elas. São Tomás de Aquino fala da necessidade de uma virtude particular – que encerra em si muitas outras aparentemente pequenas –, que “cuide de ordenar as relações dos homens com os seus semelhantes, tanto nos atos como nas palavras”3.

Estas virtudes levam-nos a esforçar-nos em todas as situações por tornar a vida mais grata aos que estão ao nosso lado. Tornam amáveis as relações entre os homens, e são uma verdadeira ajuda mútua no nosso caminho para o Céu, que é para onde queremos ir. Não provocam talvez uma grande admiração, mas, quando faltam, nota-se, e as relações entre os homens tornam-se tensas e difíceis.

São virtudes que, pela sua própria natureza, se opõem ao egoísmo, ao gesto brusco, ao mau-humor, às faltas de educação, à desordem, aos gritos e impaciências. A conversa agradável, o trato cheio de respeito devem estar sempre presentes no trabalho, no trânsito… e, de modo particular, no relacionamento com aqueles com quem convivemos habitualmente. São virtudes “contra as quais faltam grandemente os que na rua parecem anjos, e na própria casa diabos”4, como dizia o Santo. Examinemos hoje como é o nosso trato, a conversa…, principalmente com todos aqueles que o Senhor colocou ao nosso lado.

II. DA VIRTUDE DA AMABILIDADE – de que São Francisco de Sales nos deixou tantos exemplos e conselhos – fazem parte uma série de virtudes que talvez não sejam muito chamativas, mas que constituem o entrançado da caridade: a benignidade, que leva a tratar e julgar os outros e as suas atuações com delicadeza; a indulgência em face dos defeitos e erros alheios; a educação e a urbanidade nas palavras e nas maneiras; a simpatia, que por vezes será necessário cultivar com especial esmero; a cordialidade e a gratidão; o elogio oportuno às coisas boas que vemos nos outros…

O cristão sabe converter os múltiplos pormenores destas virtudes humanas em outros tantos atos da virtude da caridade, praticando-os também por amor a Deus. Aliás, a caridade transforma essas virtudes em hábitos mais firmes, mais ricos de conteúdo, e dá-lhes um horizonte mais elevado: com a ajuda da graça, o cristão encara e trata os seus irmãos como filhos de Deus que são.

Para estarmos abertos a todos, para convivermos com pessoas tão diferentes de nós (pela idade, religião, formação cultural, temperamento…), São Francisco de Sales ensina-nos que a primeira condição é sermos humildes, pois “a humildade não é somente caritativa, mas também doce. A caridade é a humildade que se projeta externamente e a humildade é a caridade escondida”5; ambas as virtudes estão estreitamente unidas. Se lutarmos por ser humildes, saberemos “venerar a imagem de Deus que há em cada homem”6, saberemos tratá-los com profundo respeito.

Respeitar
é olhar para os outros descobrindo o que valem. A palavra vem do latim respectus, que significa olhar com consideração7. Saber conviver exige que se respeitem as pessoas, como aliás as coisas, que são bens de Deus e estão a serviço do homem; já se disse com verdade que as coisas só mostram o seu segredo aos que as respeitam e amam; o respeito à natureza atinge o seu sentido mais profundo quando a encaramos como parte da criação e nos propomos dar glória a Deus através dela. O respeito é, enfim, condição que permite contribuir para a melhoria dos outros. Quando subjugamos os outros, inutilizamos os conselhos que lhes podemos dar e as advertências que lhes devemos fazer.

Ficamos gozosamente surpreendidos quando verificamos com que freqüência o Evangelho se refere aos olhares de Jesus, como se tivessem algo de muito especial. Podemos ler no texto sagrado que Jesus olhou com carinho para aquele rapaz que se aproximou dEle com desejos de ser melhor; que olhou com ternura para a pobre viúva que se mostrou tão generosa com as coisas de Deus, lançando no cofre do Templo o pouco que tinha para o seu sustento; e que olhou com simpatia para Zaqueu, que estava empoleirado no alto de uma árvore tentando vê-lo… Jesus olhava para todos com imenso respeito, fossem sãos ou doentes, crianças ou adultos, mendigos, pecadores… É esse o exemplo que devemos imitar na nossa convivência diária.

É preciso ver as pessoas – todas – com simpatia, com apreço e cordialidade. Se as olhássemos como o Senhor as olha, não nos atreveríamos a julgá-las negativamente. “Naqueles que não nos são naturalmente simpáticos, veríamos almas resgatadas pelo Sangue de Cristo, que fazem parte do seu Corpo Místico, e que talvez estejam mais perto do que nós do seu divino Coração. Não poucas vezes nos acontece passarmos longos anos ao lado de almas belíssimas, e não notarmos a sua formosura”8. Olhemos ao nosso redor e respeitemos aqueles com quem nos damos diariamente na nossa própria casa, no escritório, com quem nos cruzamos no meio do trânsito, que esperam no consultório do dentista ou fazem fila nos correios. Examinemos junto de Jesus se os vemos com olhos amáveis e misericordiosos, como Ele os vê.

III. SÃO FRANCISCO ENSINAVA que “é preciso sentir indignação contra o mal e estar determinados a não transigir com ele; no entanto, é necessário conviver docemente com o próximo”9. O Santo teve que levar muitas vezes à prática este espírito de compreensão com as pessoas que estavam no erro e de firmeza diante do próprio erro, pois procurou durante boa parte da sua vida que muitos calvinistas voltassem ao catolicismo. E isso em momentos em que as feridas da separação eram especialmente profundas. Quando, por indicação do Papa, foi visitar um famoso pensador calvinista já octogenário, o Santo começou a conversa com amabilidade e cordialidade, perguntando: “Pode alguém salvar-se na Igreja Católica?” Depois de uns instantes de reflexão, o calvinista respondeu-lhe afirmativamente. Aquilo abriu uma porta que parecia definitivamente fechada10.

A compreensão, virtude fundamental da convivência e do apostolado, inclina-nos a viver amavelmente abertos aos outros; a olhá-los com essa simpatia que convida a aceitar com otimismo a trama de virtudes e defeitos que existe na vida de qualquer homem e de qualquer mulher. É um olhar que atinge as profundezas do coração e sabe encontrar a parte de bondade que sempre existe nele. Da compreensão nasce uma comunidade de sentimentos e de vida. Pelo contrário, dos juízos negativos, freqüentemente precipitados e injustos, resultam sempre o distanciamento e a separação.

O Senhor, que conhece as raízes mais profundas do agir humano, compreende e perdoa. Quando se compreendem os outros, é possível ajudá-los. A samaritana, o bom ladrão, a mulher adúltera, Pedro que nega, Tomé que não crê… e tantos outros naqueles três anos de vida pública e ao longo dos séculos, todos eles se sentiram compreendidos pelo Senhor e deixaram que a graça de Deus penetrasse nas suas almas. Uma pessoa compreendida abre o seu coração e deixa-se ajudar.

Quase no fim da vida, São Francisco escrevia ao Papa sobre a missão que lhe tinha sido encomendada: “Quando chegamos a esta região, não havia nem uma centena de católicos. Hoje há apenas uma centena de hereges”11. Queremos pedir-lhe no dia da sua festa que nos ensine a viver esse entrançado das virtudes da convivência; que nos ajude a praticá-las diariamente nas situações mais comuns; e que sejam uma firme ajuda para o apostolado que, com a graça de Deus, devemos realizar. Ó Deus que, para a salvação dos homens, quisestes que o santo bispo São Francisco de Sales se fizesse tudo para todos, concedei-nos que, a seu exemplo, manifestemos sempre a mansidão do vosso amor no serviço aos nossos irmãos12.

(1) Oração depois da Comunhão, Missa própria de São Francisco de Sales; (2) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, III, 1; (3) São Tomás, S.Th., II-II, q. 114, a. 1; (4) São Francisco de Sales, op. cit., III, 8; (5) idem, Conversações espirituais, 11, 2; (6) São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 230; (7) cfr. J. Corominas, Diccionário crítico etimológico, Gredos, Madrid, 1987, verbete Respecto; (8) R. Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, Palabra, Madrid, 1982, vol. II, pág. 734; (9) São Francisco de Sales, Epistolário, frag. 110; (10) cfr. idem, Meditações sobre a Igreja, Introdução; (11) cfr. ib.; (12) Oração coleta, Missa própria de São Francisco de Sales.

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OITAVÁRIO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS

24 DE JANEIRO. SÉTIMO DIA DO OITAVÁRIO

10. MARIA, MÃE DA UNIDADE

Por Francisco Fernández-Carvajal, sacerdote

– Mãe da unidade no momento da Encarnação.

– No Calvário.

– Na Igreja nascente de Pentecostes.

I. SAIRÁS COM JÚBILO ao encontro dos filhos de Deus, Virgem Maria, porque todos se reunirão para louvar o Senhor do mundo1.

A Igreja, animada por um ardente desejo de congregar na unidade os cristãos e todos os homens, suplica a Deus, por intercessão da Virgem Maria, que todos os povos se reúnam num mesmo povo da nova Aliança2. A Igreja está convencida de que a causa da unidade dos cristãos se encontra intimamente relacionada com a Maternidade espiritual da Santíssima Virgem sobre todos os homens, e de modo particular sobre os cristãos3. O Papa Paulo VI invocou-a em diversas ocasiões com o título de Mãe da unidade4. João Paulo II dirigia a Nossa Senhora esta oração cheia de amor e confiança: “Tu que és a primeira servidora da unidade do Corpo de Cristo, ajuda-nos, ajuda todos os fiéis, que sentem tão dolorosamente o drama das divisões históricas do cristianismo, a procurar continuamente o caminho da unidade perfeita do Corpo de Cristo mediante a fidelidade incondicional ao Espírito de Verdade e de Amor…”5

De certo modo, a Igreja nasceu com Cristo e cresceu na casa de Nazaré junto com Ele, já que, na sua realidade invisível e misteriosa, é o próprio Cristo misticamente desenvolvido e vivo entre nós. E Maria, pela sua maternidade divina, é Mãe de toda a Igreja desde os seus começos6. Todos formamos um só Corpo, e Maria é Mãe desse Corpo Místico. E que mãe pode permitir que os seus filhos se separem e se afastem da casa paterna? A quem havemos de recorrer com mais confiança de sermos ouvidos do que a Santa Maria, Mãe?

Numa página belíssima, São Bernardo descreve-nos todas as criaturas em torno de Maria, invocando-a para que pronuncie na Anunciação o fiat, o faça-se que traria a salvação a todos. Céus e terra, pecadores e justos, presente, passado e futuro congregam-se em Nazaré em volta de Maria7. Quando Nossa Senhora deu o seu consentimento, tornou-se realidade a sua Maternidade sobre Cristo e sobre a Igreja e, de certo modo, sobre toda a criação. O pecado tinha desfeito a unidade do gênero humano e destruído a ordem do Universo. Maria foi a criatura escolhida para tornar possível a Encarnação do Filho de Deus, e, com o seu consentimento, foi também a causa da recapitulação de todas as coisas em Cristo que seria levada a cabo por meio da Redenção.

A Igreja, Corpo Místico de Cristo, teve na Encarnação – e, por conseguinte, no seio de Maria – o princípio primordial da sua unidade. A Virgem Santíssima foi aMãe da unidade da Igreja na sua mais profunda realidade, pois deu a vida a Cristo no seu seio puríssimo.

II. CRISTO CONSUMOU A REDENÇÃO no Calvário. A nova aliança, selada com o Sangue derramado na Cruz, unia novamente os homens a Deus e congregava-os ao mesmo tempo entre si. O Senhor – ensina São Paulo – destruiu todos os muros de divisão e formou uma Igreja única, um só povo8. A diversidade de raças, de línguas, de condições sociais, não seria obstáculo para essa unidade que Cristo nos alcançou com a sua morte na Cruz. Naquele instante, surgia o novo Povo dos filhos de Deus, unificados em torno da Cruz e redimidos com o Sangue de Cristo. “Elevado sobre a terra, na presença da Virgem Mãe, congregou na unidade os teus filhos dispersos, unindo-os a si mesmo com os vínculos do amor”9.

Nas horas da Paixão, a Virgem alimentava no seu Coração sacratíssimo os mesmos sentimentos do seu Filho, que na tarde anterior se despedira dos seus discípulos com uma mensagem de fraternidade, dirigindo ao Pai uma súplica pela unidade que talvez nós também tenhamos repetido muitas vezes em união com Ele: Ut omnes unum sint, sicut tu, Pater, in me et ego in te…, que todos sejam um, assim como tu, Pai, em mim e eu em Ti…10 Esta unidade que Jesus pede aos seus é reflexo daquela que existe entre as três Pessoas divinas, e de que Nossa Senhora participou num grau incomparável e absolutamente extraordinário11.

Ao pé da Cruz, Nossa Senhora, estava intimamente unida ao seu Filho, corredimindo com Ele. Ali, Jesus, vendo a sua Mãe e o discípulo que amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua Mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa12. E no discípulo amado estavam representados todos os homens. Por isso Maria é Mãe de todo o gênero humano e especialmente de todos aqueles que se incorporam a Cristo pelo Batismo. Como poderíamos esquecer-nos dEla nestes dias em que pedimos insistentemente pela unidade, como poderíamos esquecer-nos da Mãe que congrega na única casa todos os filhos?

O Concílio Vaticano II recorda-nos a necessidade de volvermos o nosso olhar para a Mãe comum: “Todos os fiéis cristãos ofereçam súplicas instantes à Mãe de Deus e Mãe dos homens, para que Ela […] interceda junto do seu Filho até que todas as famílias dos povos, tanto as que estão ornadas com o nome de cristãos, como as que ainda ignoram o seu Salvador, sejam felizmente congregadas na paz e na concórdia, no único Povo de Deus, para glória da Santíssima e Indivisa Trindade”13. A Ela recorremos pedindo-lhe que este amor à unidade nos leve a crescer cada vez mais num apostolado simples, constante e eficaz: “Invoca a Santíssima Virgem; não deixes de pedir-lhe que se mostre sempre tua Mãe: «Monstra te esse Matrem», e que te alcance, com a graça do seu Filho, luz de boa doutrina na inteligência, e amor e pureza no coração, a fim de que saibas ir para Deus e levar-lhe muitas almas”14.

III. VOLTADO PARA TI e sentado à tua direita, enviou sobre a Virgem Maria, em oração com os Apóstolos, o Espírito de concórdia e de unidade, de paz e de perdão15.

Por vontade de Jesus Cristo, a Igreja teve desde o princípio uma unidade visível, na fé, na única esperança, na caridade, na oração, nos sacramentos, nos pastores pelos quais seria governada, com Pedro à cabeça. Esta unidade visível e externa da Igreja deveria constituir um sinal do seu caráter divino, porque seria uma manifestação da presença de Deus nela. Assim o pedira Cristo na Última Ceia16. E foi assim que os primeiros cristãos viveram: unidos entre eles, sob a autoridade dos Apóstolos.

E quando os Apóstolos se reuniram no Cenáculo para receber o Espírito Santo, Nossa Senhora estava com eles. Aqueles poucos eram a primeira célula da Igreja universal, e “Maria está no centro dela, no mais íntimo, como coração que lhe dá vida”17. Os Apóstolos perseveraram na oraçãocom Maria, a Mãe de Jesus18. As pessoas e os pormenores que São Lucas descreve são como que atraídos pela figura de Maria, que ocupa o centro do lugar onde os íntimos de Jesus se encontram congregados. “A tradição contemplou e meditou este quadro e concluiu que nele ressalta a maternidade que a Virgem exerce sobre toda a Igreja, tanto na sua origem como no seu desenvolvimento”19. Aqueles que irão receber o Espírito Santo permanecem unidos em torno de Maria. “Maria criava uma atmosfera de caridade, de solidariedade, de unânime conformidade. Ela era, por conseguinte, a melhor colaboradora de Pedro e dos Apóstolos na organização e no governo”20.

Depois da Assunção aos Céus, Maria não deixou de velar pela unidade dos membros do seu Filho, e quando um dia alguns deles recusaram a sua proteção maternal que os mantinha unidos, não cessou e não cessa de interceder para que retornem à plena comunhão no seio da Igreja. Nossa Senhora faz-nos experimentar sentimentos de fraternidade, de compreensão e de paz. “A experiência do Cenáculo não espelharia a hora de graça da efusão do Espírito se não tivesse a graça e a alegria da presença de Maria. Com Maria, a Mãe de Jesus (At 1, 14), lê-se no grande momento de Pentecostes […]. É Ela, Mãe do Amor formoso e da unidade, que nos une profundamente para que, como a primeira comunidade nascida no Cenáculo, sejamos um só coração e uma só alma. E a Ela, “Mãe da unidade”, em cujo seio o Filho de Deus se uniu ao gênero humano, inaugurando misticamente a união esponsalícia do Senhor com todos os homens, pedimos-lhe que nos ajude a ser “um” e a converter-nos em instrumentos de unidade […]”21.

(1) Antífona de entrada da Missa de Santa Maria, Mãe e Rainha da unidade; (2) Oração coleta, ib.; (3) cfr. Leão XIII, Enc. Auditricem populi, 5-IX-1895; (4) cfr. Paulo VI, Insegnamenti, vol. II, pág. 69; (5) João Paulo II, Radio-mensagem na comemoração do Concílio de Éfeso, 7-VI-1981; (6) Paulo VI, Discurso ao Concílio, 21-IX-1964; (7) cfr. São Bernardo, Homilias sobre a Virgem Mãe, 2; (8) cfr. Ef 2, 14 e segs.; (9)Prefácio, ib.; (10) Jo 17, 21; (11) cfr. João Paulo II, Homilia, 31-I-1979; (12) Jo 19, 26-27; (13) Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 69; (14) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 986; (15) Prefácio, ib.; (16) Jo 17, 23; (17) R. M. Spiazzi, Maria en el misterio cristiano, Studium, Madrid, 1958, pág. 69; (18) At 1, 14; (19) Sagrada Bíblia, Hechos de los Apóstoles, nota a At 1, 14; (20) R. M. Spiazzi, op. cit., pág. 70; (21) João Paulo II, Homilia, 24-III-1980.

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